quarta-feira, 29 de março de 2017

It’s all about character (notas sobre literatura, ética e política)


Naquilo que os historiadores chamam de “modernidade”, foram cometidas várias loucuras, e uma delas foi a separação entre política e moral. Antes de passar a este ponto, preciso fazer o que faço de costume nestes longos textos que apenas alguns amigos leem, isto é, cansativos parágrafos de preparação e ambientação, até entrar no tema. Primeiro me desculpar por sugerir que leriam um texto em inglês. Na verdade, o título é apenas uma espécie de homenagem à língua inglesa e a um de seus mais eminentes mestres, no sentido de mestre mesmo, de alguém que domina (masters) a língua, de quem sempre quis ler a obra, agraciada com o Nobel de Literatura em 1953, e cujos fragmentos compilados por seu neto tive o prazer de encontrar na edição Never Give In! Winston Churchill’s Speeches. Segundo, porque vai parecer que estarei tratando de política, o que é muito avesso ao meu caráter. Na verdade, este é um texto sobre literatura. Pois, ao travar contato com a obra de Churchill, me dei conta de que seu maior feito político foi literário, e de que esse literário é sobretudo ético ou estético (no sentido de ético). E de que, se existe uma tal coisa como a separação entre política e moral, então o seu maior feito político foi anti-político.

Churchill fazia sua maior política quando se sentava numa manhã ensolarada, por quatro horas calmas e de ininterrupta segurança, apenas com papel branco e caneta, o que ele chamou de “felicidade verdadeira”. Aliás, à caneta é conferida, no título deste discurso pronunciado pelo ex-soldado e jovem estadista ao Clube dos Autores de Londres, em 17 de fevereiro de 1908, a patente de “libertadora do homem e das nações”. Eu não resisto em citar aqui o modo como ele opõe a sua rotina como membro do parlamento a essas horas de felicidade e liberdade: “Que importa o que esteja acontecendo lá fora? A Câmara dos Comuns pode fazer o que quiser, assim como a Câmara dos Lordes. Os pagãos podem ranger furiosamente em cada parte do globo. O mercado americano pode ter atingido o fundo do poço. Os títulos do governo podem despencar e sufragistas podem surgir. Não interessa. Por quatro horas, de qualquer modo, vamos nos afastar deste mundo comum, governado de forma doentia e desordenado, e com a chave da fantasia abrir aquele armário onde todas as coisas do infinito foram guardadas e deixadas de lado.”

Apenas começamos a ler os primeiros discursos do jovem Churchill e ficamos impressionados como a política é assunto literário, e nessa medida também estético, e de grande responsabilidade ética, principalmente. Um domínio onde não pode reinar outra coisa que não o bom senso. Em suma, a verdadeira política não é uma questão de política.

Na verdade, é uma questão de caráter. Caráter que é inteligência, e não apenas um discurso moralista vazio e, muitas vezes, hipócrita. Sobretudo aquela forma de inteligência que estou chamando de bom senso, e que ninguém jamais entenderia se já não tivesse um. Essa forma de inteligência, na minha opinião, está na origem de todas as demais, sem que seja superior a todas as demais. Desde que os filósofos abdicaram da tentativa de uma explicação global da existência, diagnosticaram não somente a autonomia das esferas da cultura, mas começaram a defender até mesmo a ideia de que há muitos tipos de inteligência. Recentemente, isto se tornou coisa inquestionável em psicologia. Eu não me incomodo com esta ideia, e acho até que temos evidências disso. O problema é quando uma dessas inteligências, ou até mesmo uma certa separação muito rígida delas, fere aquela forma não exatamente superior, mas muito básica, elementar, de inteligência. Estou inclinado a pensar que qualquer manobra filosófica assim é um tipo de “loucura”, como o idealismo, que separa a mente das coisas que ela conhece, por exemplo. Uma dessas formas de loucura é a ideia de que uma inteligência política não está realmente vinculada a preocupações morais. Pior, há mesmo quem defina a inteligência política como uma forma moderna de bom senso, que, pasmem, nada tem a ver com moral. Ora, qualquer pessoa, não precisa ser muito estudada para isso, sabe que algum tipo de inteligência completamente separada de preocupações morais não pode ser inteligente.

Algumas pessoas pensam que fazer política requer senso prático. É o contrário! Requer liberdade. A liberdade de pensar e refletir, a liberdade de ter um ideal e não abrir mão dele (Never give in!), a liberdade da literatura, a liberdade de manter-se firmemente aferrado ao bom senso real, sensível ao grito das coisas importantes, não ao senso prático político oportunista. Na verdade, trata-se de uma política precisamente anti-oportunismo. Vejamos como Churchill a encarna de modo exemplar.

Em 31 de maio de 1904, sentou-se do outro lado da Câmara dos Comuns, junto aos membros do Partido Liberal, em defesa da liberdade de comércio que o Partido Conservador, antes seu partido, havia abandonado em nome dos cartéis protecionistas. Um mês depois, dirigia-se ao Palácio Alexandra para atacar a plutocracia do protecionismo, num discurso em defesa do que considera um princípio acima do que pensam os partidos, o princípio que diz que os homens, enquanto existirem, vão continuar a comercializar mercadorias neste mundo, e isto não tem nada a ver com capitalismo. Pelo contrário, o Partido Conservador, com suas medidas protecionistas, é que estava pensando capitalisticamente, plutocraticamente, fazendo uma “aposta com a comida do povo”.

No emblemático discurso de 11 de outubro de 1906, pronunciado no Saint Andrew’s Hall, em Glasgow, Churchill emplaca, como membro do Partido Liberal, medidas consideradas radicais ou “socialistas” para a época, como o seguro-desemprego, o salário mínimo e melhores condições de trabalho, especialmente para os trabalhadores das minas. Com ironia fina, conclama os membros do Partido Liberal a não ter “medo de discutir qualquer dessas propostas só porque algumas velhas senhoras aparecem e lhe dizem que são socialistas”.

Esse discurso é emblemático porque é ali que Churchill revela sua “filosofia”, que está além da dicotomia besta liberalismo versus socialismo, ou individualismo versus coletivismo. Sua filosofia é obviamente a do bom senso, a que mais perto está de uma mente sadia e que não sucumbe à loucura de achar que a verdade é obra de teoria, e não de evidências. Para ele, como para muita gente atenta, o homem é um animal ao mesmo tempo competitivo e gregário. Ele junta-se em grupo, se solidariza, mas também compete e destrói. Ele almeja vencer, mas não abre mão de determinadas convicções que para ele são condições da própria competição. O bom senso de Churchill é estarrecedor. Coletivamente temos um Exército, os correios, o sistema de água e as ruas. Mas não fazemos amor coletivamente! Não nos apaixonamos por um grupo, mas por pessoas. Por causa de sua filosofia do sentido comum, Churchill pode defender uma ideia tão óbvia que parecia absurda. Preciso ceder mais uma vez à citação:

“Não quero ver prejudicado o vigor da competição, mas podemos fazer muito para mitigar as consequências do fracasso. Queremos demarcar uma linha abaixo da qual não permitiremos que nenhuma pessoa possa viver e trabalhar, e acima da qual elas podem competir com toda a força de sua humanidade. Nós queremos ver livre a competição para cima; nos recusamos a permitir que haja competição para ver quem vai mais baixo.”

Eu deveria terminar este texto aqui, mas não tenho, como disse o Pe. Vieira, tempo para ser sintético.  Preciso dizer uma obviedade, a saber, que muito do que chamamos liberalismo está longe ser liberalismo. E que muito do que chamamos socialismo é a mais burocrática plutocracia. A política não tem tempo nem condições de refletir como a literatura tem. Preciso acrescentar que, a esta altura, Churchill lança mão de sua experiência como ex-combatente e mostra como nenhuma operação é mais arriscada do que a operação de salvamento de uma retaguarda. Quando o principal corpo do exército alcançou a vitória, mas descobre que deixou atrás de si um enorme contingente de feridos, é hora de mobilizar para lá os mais fortes soldados e os mais confiáveis generais.

Chamemos de elite aquele grupo “vencedor” na competição econômica. Será que ele não percebe que, se não salvar a retaguarda, sua vitória é efêmera? Como trabalharão os famintos? Como defenderão os desempregados da criminalidade? Não estou justificando o crime. Eu confio na boa vontade dos homens, só não suponho que todos os homens sejam bons quando famintos, reduzidos à barbárie e indignos da dignidade. Também neste dilema está pressuposta uma dicotomia que não existe, entre ética e ontologia. O fato de que o “ser” humano, quando não é humano, não tem obrigações éticas, significa apenas que temos a obrigação ética de não permitir que um ser humano não seja humano.

Alguém dirá: “Mas isso é romantismo! Na prática não é assim! A ambição dos ricos é incontrolável!” Mas eu disse que este era um texto de literatura. Não enrijeci minha mente com nenhuma teoria. Penso que ainda consigo me defender do que chamei genericamente de loucura. Aqui eu posso dizer não apenas que a ambição dos ricos é incontrolável, mas também que é burra. Aqui estão as minhas quatro horas da manhã de hoje. A única coisa que me importa é que meu tempo acabou, que o texto ficou longo demais e nem consegui falar da defesa apaixonada do constitucionalismo que Churchill fez quando os Lordes supuseram poder ferir a constituição e convocar eleições gerais só porque rejeitaram o orçamento. Tal como os outros, este discurso pronunciado no Teatro Palácio de Londres, em 04 de setembro 1909, chamado “Uma violenta ruptura com a prática constitucional”, deixo aqui apenas como sugestão para os brasileiros, pelo menos para quem gostaria de refletir que mudar o que é passageiro pode ter consequências permanentes.



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