sábado, 5 de novembro de 2016

Nem católicos nem evangélicos: afinidades eletivas no mundo político-religioso


Há poucos dias, realizei um pequeno teste proposto pelo site britânico “The Political Compass” (A Bússola Política). Gostei muito, sobretudo depois de saber que minha posição é quase idêntica à de Beethoven e está bem distante da de Wagner. Mas gostei ainda mais porque, segundo os organizadores do site (que apesar de obter um renomado feedback de políticos e intelectuais, permanece anônimo), seu ponto essencial é que “esquerda-direita” está longe de ser uma dicotomia obsoleta, por ser ainda bastante útil em questões econômicas. Contudo, a “bússola” reconhece que a divisão tem se tornado cada vez mais borrada. 

A divisão dos partidos políticos tende a responder questões de identidade (social, espiritual, sexual, etc.), e não apenas questões econômicas. Daí a bússola trabalhar com uma rosa-dos-ventos política, acrescentando à linha horizontal (direita-esquerda) uma linha vertical (autoritarismo-libertarismo). Embora haja algumas perguntas tolas no teste, creio que pode ser um começo para pensar algumas “surpresas” políticas do Brasil recente, por exemplo, por que o PSOL, de Marcelo Freixo, aparentemente de esquerda, não ocupou, como se pensava, o vácuo deixado pelo Partido dos Trabalhadores, mas concentrou-se nas áreas mais abastadas do Rio de Janeiro (Tijuca-Centro-Zona Sul)? Por que, por outro lado, o candidato Marcelo Crivella, de quem é mais relevante dizer que pertence à Igreja Universal do Reino de Deus do que informar o nome do seu partido (criado pela própria igreja), respondeu mais aos anseios daquela parcela da população que tem todos os motivos para discordar de sua agenda econômica? 

A resposta pode ser simples, se não fosse complicada: Freixo não é um candidato de esquerda, mas é um candidato libertário. Ele ganha entre os mais ricos na linha vertical. São os que têm menos senso de comunidade e querem mais liberdade para seus estilos de vida cada vez mais singulares. Ele apoia o feminismo, a legalização do aborto e é contra a homofobia. Mas isso nada tem que ver com assuntos econômicos. Se o assunto fosse apenas economia, Freixo teria dado um capote em Crivella nas zonas Norte e Oeste do Rio, e os libertários do Leblon teriam que votar no bispo. Mas, para desespero do filósofo materialista, um homem desempregado pensa mais em seus valores imateriais. Mesmo que tenhamos em conta a decadência moral da periferia carioca, expressa nos cultos evangélicos animados a funk e na ideia absurda de traficantes evangélicos, a grande maioria das pessoas ainda pensa como uma pessoa comum. Ela tem um senso de ordem, um apego natural à família, uma hipocrisia naturalmente controlada pela própria importância dos valores que defende, e ela tem razão. 

Digo que ela tem razão porque sou cristão, embora minimamente libertário, segundo a bússola. Como não sou rico, e como sou cristão, estou, também segundo a bússola, 3.15 à esquerda, se não me engano, o que para mim representa apenas que o Estado deva corrigir grandes desigualdades, deixar quietas as pequenas desigualdades e garantir que a liberdade econômica siga em frente. Estou longe do socialista. Mas, por outro lado, como sou fruto da liberdade religiosa, e creio que toda genuína mudança vem de dentro, sem imposições, prefiro uma fé cristã nascida em solo libertário, na escala de 1.56. Estou longe do autoritarismo, segundo a bússola, mas não tão longe dele quanto estou do neoliberalismo econômico. 

Isto porque, como cristão e como uma pessoa comum, cultivo um senso de ordem, um apego natural à família, valores que tomo em alta conta e que apontam todo dia, contra mim, um sentimento saudável de culpa. Eu lutaria por esses valores, mas não por mais liberdade para minha empresa, se tivesse uma. Mas lutaria, mais que tudo, se alguém tentasse arrombar minha casa, o que penso ser uma defesa sagrada do direito à propriedade. Como disse, sou cristão. Mas também sou pobre, de certa forma, e, por razões econômicas, não posso votar num Crivella (ainda mais porque a IURD, como empresa ambiciosa que é, já está visando à classe média-alta e deixando os pobres para o R.R. Soares, o pastor-cowboy Valdemiro Santiago e coisas do gênero). Ainda que por razões morais e de liberdade social, a pequena teocracia de Crivella é insuportável demais mesmo para o meu pequeno libertarismo que, aliás, herdei da ala radical da reforma protestante, os anabatistas, pacifistas, democrático-congregacionalistas (a igreja reunida em assembleia manda mais que o pastor) e defensores da inegociável separação entre Igreja e Estado. Só que tive de dar razão a um colega, professor de ciência política, quando afirmou o seguinte: 

“Os intelectuais, a mídia e a população de um modo geral não sabem o que é evangélico, protestante, pentecostal ou reformados. Eles misturam tudo. Para eles todos estes citados acima são “farinha do mesmo saco”. São “gatos do mesmo balaio”. A entrevista deixa isso muito claro. Portanto, não nos iludamos. Edir Macedo, que está por trás de todo esse projeto político, usa-nos a todos, queiramos ou não. Achemos que sim ou que não.” Concordo. Com estas palavras do meu querido colega Josadac Santos concordo. E considero problema pouco não. Se protestantes históricos, pentecostais, reformados, radicais, etc., não se entendem entre si, como rejeitarão em uníssono a IURD e Cia Ltda.? E quem são a Cia Ltda., que também não merecem o título de igrejas cristãs? No fim das contas, tem valido a dicotomia sedimentada “católicos x evangélicos”, e por rejeição “química” a este projeto político-religioso (moralismo, teologia da dominação, teologia da prosperidade) parte do setor evangélico tem buscado novamente aproximação com o catolicismo, ora por afinidade teológica ora pela simples procura simbólica de uma “ortodoxia”.

Não quero apontar apenas as diferenças de pauta entre os variados segmentos da chamada Frente Parlamentar Evangélica no Congresso, que às vezes se digladiam, às vezes se unem, de que fala com propriedade a entrevista a que meu colega se referiu, mas apontar as diferenças entre aqueles que fundamentam sua teologia no ódio, não importa a quem, e aqueles que a fundamentam no serviço. O ex-ministro Mangabeira Unger, hoje cedo, já começava colocando sua entrevista em outra direção, ao dizer que “o desmerecimento preconceituoso dos evangélicos é um dos maiores escândalos da nossa vida nacional”. Atento, ele recorda a cultura empreendedora e criativa da classe média e dos mais pobres que se dizem evangélicos, que vão dar diretamente no incremento da economia, sem dar muita importância para os rótulos apressados de “conservadores” ou “fascistas”. Vêm dessa cultura de iniciativa, aliás, e não das políticas públicas, os exemplos bem-sucedidos de trabalhos sistemáticos de recuperação de dependentes químicos.

Mas a presidenta ilegitimamente impedida errou ao colocar o tom de seu discurso na linha vertical, de liberdades sociais, e não na linha horizontal, de liberdades econômicas, quando disse que o golpe foi “misógino, homofóbico, racista” e que “a primeira vez que uma mulher chegou à presidência, o machismo mostrou suas feitas faces”. Ora, Margareth Thatcher poderia ter dito o mesmo, se tivesse sofrido um golpe e, no entanto, sua agenda econômica estava a infinitos pontos de distância da de Dilma. Os mais pobres, acredito, estão com a esquerda, no quesito economia, e os pobres empreendedores, peixinhos entusiastas do mercado, também precisam da proteção do Estado contra os grandes tubarões, mas jamais aceitarão, pois sempre serão maioria, a pecha de conservadores ou de direita só porque defendem o modo como aprenderam a levar suas vidas, no quesito liberdade social.

Aqueles que pensam que lutar contra a homofobia faz de alguém imediatamente um eleitor de esquerda, ou que pensam que ser religioso e contra a legalização do aborto faz de alguém imediatamente um eleitor de direita, são presas do mesmo preconceito, do escândalo da nossa vida nacional-intelectual, de nossa mídia e de nossos filósofos, sociólogos, politólogos, etc., que não fazem a menor ideia da riqueza teológica e histórica da reforma. Eles sabem possivelmente mais sobre diferentes tipos de budismo do que sobre a diferença entre um católico, um protestante histórico e um neopentecostal. Do contrário, saberiam que os dois primeiros se parecem mais que os dois últimos. Eles não estão preparados para compreender a nova cristandade dos países emergentes, pois reproduzem categorias dos livros de história do ensino médio. Eu diria, acrescentando à fala de Mangabeira, sem qualquer pretensão política, que o preconceito teológico é um dos principais escândalos da vida intelectual brasileira, que deveria sobre isso orientar também a mídia brasileira.




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