sábado, 30 de julho de 2016

“Em pleno século XXI” e outros chavões



Às vezes me pergunto se vivemos uma espécie terrível de era pós-comunicativa ou pós-argumentativa. Mas como não dou muita bola para nenhuma espécie de “pós”, porque logo este também terá o seu “pós”, não ousaria ser tão estúpido para colocar nessas bases uma reflexão sobre as atuais condições do debate político-religioso. Mas posso, sem idolatrar prefixos, constatar facilmente o que muitos já constatam: que as formas contemporâneas do diálogo não têm quase nada do que se pareça com um diálogo. Tanto que muitos se metem ou se intrometem, numa conversa, com o intuito um pouco estranho de dizer algo definitivo e mostrar que a conversa não serve para nada. Que muitas conversas não servem para nada, isso é um truísmo. Mas que alguém entre numa conversa para dizer que ela não serve para nada, isso é louco ou não serve para nada. Mas em nossa época tem sido tão recorrente, que poderia parecer um truísmo. E eu me nego a acreditar que haja truísmos loucos. 

Uma verdade trivial, que nem mereça ser dita, pode ser tão óbvia que não mereça ser dita. Mas os diálogos atuais são aqueles, em sua maioria tão loucos, que alguém tem de vir e dizer a maior das loucuras: a verdade trivial de que aquele diálogo não serve para nada. Mas não é relevante dizer um truísmo. A única coisa relevante que se pode dizer sobre um truísmo é que ele é um truísmo. Assim, por exemplo, é uma verdade trivial que a distinção entre direita e esquerda não serve para nada. Neste caso, a única coisa relevante que se pode dizer sobre isso é que dizer que a distinção entre direita e esquerda não serve para nada é um truísmo. 

Assim, por exemplo, o fato de que alguém que entre num diálogo para insultar não está dialogando é uma verdade trivial. A única coisa relevante que se pode dizer sobre isso é que dizer que alguém que entra num diálogo para insultar não está dialogando é uma verdade trivial. Mas isto é o mais louco em nossa época: a necessidade de dizer truísmos não para dizer que são truísmos, mas como se fossem coisas relevantes. Assim, alguém precisa lembrar, num diálogo, que o insulto não é diálogo. E às vezes é preciso dizer que a distinção conceitual entre direita e esquerda, ou entre progressistas e conservadores, não serve para nada. Alguém precisa dizer que estas etiquetas são vazias.

Eu tenho dito que a necessidade de um diálogo inter-religioso e dos cidadãos descrentes com os cidadãos que professam alguma fé é fruto de uma sociedade que se tornou irremediavelmente complexa. O diálogo tornou-se necessário, isto é um fato. Agora devemos buscar as bases na qual ele é possível, e eu creio que seja, dentro de certos limites bastante amplos. Pois se acreditamos que uma coisa necessária não é possível, é como se uma pessoa com fome fosse procurar comida no deserto. Isto só é compreensível se esta pessoa, praticamente um santo, quiser meditar profundamente sobre sua fome. Ou, de volta da metáfora para o assunto, se a pessoa quiser ficar um tempo calado, até que tenha alguma coisa para falar. 

Agora, por exemplo, não vai adiantar nada ficar repetindo chavões do tipo “em pleno século vinte e um”... Eu, sinceramente, já não levo mais a sério nenhuma fala que contenha essa expressão. Ela não diz nada. A pessoa que a emite não tem nada para dizer. Assim como quem usa chavões do tipo “conservador”, “progressista”, etc. Eu preferiria que, em vez de conservador, alguém chamasse alguém de “conversador”. Diria muito mais a seu respeito. Agora o “em pleno século XXI” é realmente muito engraçado. Acho que o sentimento que os contemporâneos têm a respeito de seu tempo é um tanto quanto ridículo. Eles pensam que são os únicos na história que ousaram fazer coisas que não só já foram feitas como também já foram superadas, há muito tempo.

Por exemplo, basta dar uma olhada no décimo quarto Salmo, atribuído a Davi, que viveu provavelmente um milênio a.C., para ver que não acreditar em Deus é uma coisa muitíssimo antiga. Ali, o músico canta, já no primeiro verso: “Diz o insensato no seu coração: ‘Deus não existe!’”. Agora, imaginem, em pleno século X a.C. (dez séculos antes de Cristo), alguém já não acreditava em Deus. Mas as coisas não são tão simples assim. Aqui, o ateísmo não é apresentado unicamente como um gesto “teórico”, como uma mera posição metafísica. Pelo contrário, é apresentado como uma insensatez, uma espécie de racionalização ou ideologia, no melhor sentido dessas palavras.

Em algumas traduções diz-se “o tolo”. Isto porque, para o compositor – e uma boa olhada na sequência do canto, uma exegese nem tão profunda, já confirma isto –, ninguém teria o interesse meramente teórico em não crer em Deus. Na verdade, o insensato “diz no seu coração”, e isto significa: ele quer, gostaria, sente prazer na ideia de que não exista Deus, e isto significa, ainda, que não exista um juiz, um reparador das iniquidades, um abrigo para o pobre e para os injustiçados. Portanto, a não ser que alguém esteja comprometido com a injustiça e com o mal, não teria uma verdadeira razão para dizer “em seu coração”. 

E, do mesmo modo que, em pleno século X a.C. existiam ateus, qual o problema de haver, “em pleno século XXI” d.C., os que creem? Às vezes eu penso que historicizaram tanto a história que a coitada parece uma sucessão de ideias geniais que cada época julga somente sua, automaticamente tomando todo passado como ultrapassado ou, no máximo, precursor. Na verdade, não só não há um problema em crer em Deus como, ainda que houvesse, é um fato que as pessoas nunca deixaram de crer. 

Há tanta literatura disponível sobre as complexidades históricas, sobre a genialidade dos antigos, dos medievais e a superficialidade dos contemporâneos, que o mais surpreendente não é que “em pleno século XXI” ainda existam cidadãos religiosos confrontando suas ideias com cidadãos não religiosos. Surpreendente mesmo é que haja, em pleno século XXI, cidadãos utilizando expressões como “em pleno século XXI”, como se cidadãos religiosos devessem deixar de existir, pura e simplesmente. Como se, num passe de mágica, pudesse acontecer o que em vinte séculos não aconteceu.

Se quiséssemos realmente dar um passo, e deixar de falar que um truísmo é um truísmo para sermos minimamente relevantes, poderíamos dizer algo menos óbvio. Por exemplo, que surpreendente mesmo é como, deparando com a tentativa de cidadãos religiosos em exercer sua voz publicamente, alguém grite que se está tentando voltar à Idade Média. Isto é uma “etiquetada” que não diz nada, se alguém não disser sobre qual aspecto da Idade Média está se referindo. Não passa de um “antidiálogo”, isto é, a tentativa de demarcar o outro como ultrapassado, retrógrado, etc., indigno de voz. 

É surpreendente como, em pleno século XXI, ainda se repita um discurso vazio sobre o fato de a religião ser algo da esfera privada, de foro íntimo, que nada tem a ver com o que se passa na esfera pública, que não deva dar palpites sobre a agenda científica, tecnológica, econômica ou política. É surpreendente como, em pleno século XXI, as pessoas queiram retornar ao século XVIII, um retrocesso ao iluminismo ingênuo, que ainda confia nessas crianças tão jovens como a tecnologia ou a economia caminharem com as próprias pernas. É surpreendente como, em pleno século XXI, não se tenha percebido que estamos no século XXI, isto é, um século cheio de cidadãos religiosos, e até mais religiosos dos que décadas atrás. É impressionante que, em pleno século XXI, alguém pense que pode entrar num diálogo com o intuito de calar vozes, seja pela violência ou pela etiqueta. 

Quanto ao fato de haver vozes grosseiras, imorais e de ódio vindo de cidadãos religiosos, isto só confirma que estes também estão tentando calar os não-religiosos, o que certamente também não funcionará. Para estes, precisa valer o princípio de que mesmo a fé, e principalmente ela, só pode brotar genuinamente da liberdade. O mundo se tornou, queiramos ou não, irremediavelmente complexo. Quase tão complexo quanto a Idade Média e praticamente complexo como a Alexandria do período de Cirilo. O diálogo inter-religioso e entre cidadãos religiosos e não-religiosos é necessário, e deve ser possível. Só não adiantará nada passar ao outro um atestado de silêncio. Que século é este, ingênuo o suficiente para se julgar pleno?

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