sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sobre a disposição de escutar



No último mês, narrei aqui uma história sobre o fim da religião que chamei de “A Grande Bobagem”, que muitos, inspirados por uma teoria linear da aventura humana e por uma hipótese sociológica superficial, tomam por verdade. Desta vez, contrariamente, vou falar sobre verdade, que muitos, por não entenderem aquilo que constitui esse conceito tão simples quanto difícil, tomarão por uma narrativa ou mera história. Eu prometi fazer relatos de minha última viagem ao Velho Mundo e oferecer algumas razões pelas quais acredito que “A Grande Bobagem” é muito mais boba do que eu supunha, que a Europa não está inevitavelmente secularizada. Mas direi também que é boba a mesma história invertida, isto é, “A Grande Bobagem” contada de trás para frente, de que a crença num Deus miraculoso e redentor, com as devidas correções antropologicamente corretas, aguarda seu último papel histórico, na verdade pós-histórico, junto às sociedades periféricas não inteiramente secularizadas e que não conseguiram se industrializar o suficiente para afastar o fantasma da pobreza e de Deus. Pois bem, a minha humilde história, que vou contrapor a esta grande história boba, narro agora.

Faz pouco, desembarquei em Lisboa, Portugal, para um congresso de filósofos. Aquele era apenas o início de meu caminho até Santiago de Compostela, na Espanha galega, vale dizer. Lisboa era apenas a minha Antioquia da Síria. A primeira das cidades que visitaria falando de S.Paulo, apóstolo, e os filósofos que dele se ocuparam. Ficaria a maior parte do tempo no Porto, passaria pela Serra do Marão, na bela Amarante de S.Gonçalo, até regressar, passando pelo Rio de Janeiro, essa cidade natal que amo menos do que devia, à minha agora simpática Aracaju. Dirão que tal itinerário religioso é suspeito, um caso de exceção à regra geral do Deus morto e sepultado. Poderão até explicar tudo a partir da crise econômica ibérica. Mas o fato é que a conferência de abertura do congresso de filósofos foi proferida por um francês. Isto é emblemático, porque se há um lugar onde Deus morreu, ou poderia ter morrido, é na França, na Paris de Maximilien. É verdade que, para alguns historiadores da religião e da filosofia, como o ilustre Heinrich Heine, foi o filósofo alemão Immanuel Kant quem verdadeiramente O matou. Eis um enigma. Kant, que nunca saiu de sua pequena Königsberg, matou Deus em Paris, usando Robespierre como testa de ferro. É assim que os filósofos enxergam o mundo.

Mas então o filósofo que encontrei em Lisboa falando em francês era francês de Épenoy, e sua conferência tinha por título “Verdade, veracidade e crença”. Julguei que seria mais uma dessas preleções sobre conceitos abstratos, com forte inclinação analítica, quanto aos fundamentos da ciência. Sim, porque “crença”, caso não se esteja acostumado ao vocabulário filosófico especializado, há muito foi incorporado pela filosofia como uma noção ajustada à discussão sobre o conhecimento, e não sobre religião, fé ou qualquer coisa que poderia parecer à primeira vista. Mas, para minha surpresa, neste caso, era.

O filósofo francês famoso, chamado Jacques Bouveresse, começava por citar outro grande filósofo famoso, só que britânico, Bertrand Russell, esclarecendo que um dos argumentos essenciais que este utilizava contra a religião, e particularmente contra o cristianismo, era que as crenças religiosas são normalmente aceitadas por razões que não têm nada a ver com o conhecimento de que elas são verdadeiras ou falsas. Idealmente, deveríamos sempre basear nossas crenças em razões que dizem respeito à verdade da proposição que as expressa, e não em razões de outra natureza. O que seriam razões de outra natureza? Poderiam ser razões de ordem prática, terapêutica, etc. E, para Russell, é neste tipo de razão que estão baseadas as crenças religiosas. Isto é, porque elas seriam necessárias à preservação do instinto solidário, ao conforto diante de doenças e catástrofes, etc. Esta seria a diferença entre uma crença científica e outro tipo qualquer de crença. “Idealmente” significa também que a crença científica contém um “esforço” para seguir esse princípio, de que suas razões tenham a ver com a verdade da proposição, ou pelo menos com a probabilidade de ela ser verdadeira.

Naquela manhã, o francês não derrotou o britânico, mas foi muito impiedoso com ele. Dizia que, para ser honesto, é estranho pensar nos inúmeros indícios que temos para acreditar em Deus e que, embora não nos faltem razões para acreditar n’Ele, e dos mais variados tipos, não são lá grande coisa quando confrontadas, todas essas razões, com uma só questão realmente importante, a de a crença ser verdadeira ou não. Este é um pressuposto bastante radical do britânico, presente em sua radical recusa do pragmatismo, aquela corrente filosófica que, grosso modo, toma também em consideração se uma crença é boa de se crer, e não unicamente verdadeira. O francês afirmou, com bastante firmeza, que numa época, diferentemente da de Russell, em que a ciência já não tem tanto prestígio, tal princípio permite à religião ganhar novamente respeitabilidade.

Eu poderia aqui desenvolver críticas possíveis ao que gostaria de chamar de “positivismo” de Russell e encorajar uma perspectiva mais pragmática sobre a verdade. Pois certamente eu não me caso com uma mulher porque creio que é verdade que ela é a minha esposa, mas sim porque creio que ela pode ser uma boa esposa. Recentemente, um grande amigo, mas cujas crenças religiosas mais profundas eu não ouso perscrutar, ganhou um prêmio com uma tese de doutorado em filosofia discutindo muitos argumentos simpáticos à ideia de economia teórica e outras importâncias pragmáticas numa explicação científica. Mas eu não vou fazer isso. E também não vou dizer que se tornou démodé em filosofia tal positivismo ingênuo. Não, eu não vou apelar para um argumento histórico, para a moda intelectual, nem para o estilo de vida de certo conceito de verdade. Minha intenção inicial era muito menos pretensiosa. Basta, para mim, mostrar que Deus não morreu na Europa, e que argumentos religiosos são levados a sério por lá.

Quero dizer que, se eu fosse Paulo e tivesse chegando a Atenas, eu não teria encontrado estoicos e epicuristas debochados, mas estoicos e epicuristas sérios, como de fato creio que eram os estoicos e epicuristas de Atos 17:18. Isso não significa que seriam mal-humorados, mas que gostariam de rir da coisa certa. Frequentemente, com raras exceções, como este amigo suspeito por ser um amigo, não creio muito na maioria dos filósofos brasileiros da ciência. Quando cheguei a Lisboa, não encontrei um filósofo da ciência aferrado a seu pressuposto dogmático como se fosse a infalibilidade do Papa, mas um filósofo interessado em levar a sério quais argumentos nós temos para crer na infalibilidade do Papa ou, pelo menos, na existência de Deus. Se ele não estava colocando em questão seu próprio pressuposto, então estava discutindo argumentos religiosos no seu mesmo plano, o plano da verdade.

Talvez o filósofo brasileiro da ciência, com raras exceções, mereça o homem religioso brasileiro. Poucos deles têm alguma disposição para escutar um ao outro. Por isso, nossa filosofia da ciência pode ser tão rasa quanto nossa apologética cristã. Com raras exceções. O fato é que aquele filósofo francês, contrapondo e ao mesmo tempo levando a sério o pressuposto de um filósofo britânico, levou a sério razões para a crença religiosa. Fez isso a partir de uma ideia muito difícil, que eu só comentarei daqui a um mês, noutro texto. É uma ideia boa demais para não merecer um texto só seu. Tivemos, eu e aquele filósofo gentil, uma conversa pessoal muito franca sobre esta ideia, mas guardarei algum suspense. Quando dou de vistas para trás, penso que meu humilde relato de viagem pode se estender mais do que eu supunha. Como era mais do que eu supunha a bobagem da “Grande bobagem”.

Mas talvez o mais importante seja insistir em que a refutação da Grande Bobagem só faz sentido junto com a refutação da sua versão invertida. Se é falso que a Europa secularizou-se por completo, então também é falso que há uma “contramão” da história, protagonizada por energias religiosas da América Latina, por exemplo. Este é mais um sinal, penso eu, de um certo "complexo de vira-lata" que atribuem constantemente aos brasileiros. E por que não valeria para os filósofos brasileiros? Mas, na verdade, discordo da expressão porque gosto muito dos vira-latas. O fato é que estamos todos no mesmo contexto global, na mesma condição humana, disputando os mesmos argumentos. Mas as poucas vozes religiosas sérias por aqui, talvez por culpa daquilo que uma vez eu chamei de grande mídia anencéfala, e da pequena mídia bicéfala, continuam por ser ouvidas. O filósofo ou homem de ciência, por sua vez, com sua falsa imagem do que seja a tarefa da filosofia ou da ciência, o tal complexo canino, continua sem verdadeira disposição para escutar. Sem nem mesmo observar os argumentos, mas somente a disposição para escutar e levá-los a sério, contrariando todas as expectativas, eu me nego a acreditar que somos mais religiosos que os povos do velho continente. Quero acreditar que, no fundo, também não o somos menos. Nenhum povo é.





Translate