domingo, 28 de setembro de 2014

A Grande Bobagem

Vou contar-lhes uma história, de que este texto é apenas a introdução. Há pouco mais de um século, difundiu-se mais facilmente do que merecia a ideia de que a Europa tinha se secularizado. Junto com ela, “nasceram” já secularizados Canadá e Oceania. É a velha história, tão nova e já velha, de que Deus tinha morrido, mas cujo fantasma ainda perambulava nos rincões pobres da América Latina e parte dos EUA, que possuem, devido ao excesso de riqueza, mais rincões pobres do que a gente imagina. De outro lado, como se nada tivesse a ver com nada disso, a Grande Ásia. Isto, toda essa história, é o que eu chamo de “A Grande Bobagem”, grande também no sentido de que é uma bobagem plausível, mas afinal uma bobagem.

Essa história divide a história em duas, não no plano vertical, que o Cristo dividiu, mas no plano horizontal, geográfico. A história das duas partes do planeta: a parte que tem história, e a que não tem. A primeira parte teria então se secularizado. A segunda era uma enorme roda girando eternamente em torno de si mesma, na suástica budista, no cofio da barba de Confúcio, nas peregrinações do profeta Maomé. Junta-se a esta história um tanto carregada de misticismo filosófico uma hipótese sociológica medíocre, a de que a religião é fruto da pobreza, e pronto, tudo fica facilmente explicável, muito mais facilmente do que seria aceitável.

Uma versão invertida dessa história diz que não foi meramente o fantasma de Deus que migrou para as bandas que não embarcaram sorridentes na história, mas que para ali, junto com Deus, migraram todas as energias adormecidas de uma civilização que tinha tomado o bonde da história morro acima, mas que, desgovernado, agora se dirige morro abaixo vertiginosamente. Quando este bonde parar, dizem, as energias do novo mundo despertarão, pois dali sairia novamente da tumba o Deus que outra vez já saiu da tumba. Esta, contudo, é uma bobagem não menos pequena. Na verdade são partes da mesma grande bobagem.

Sendo versões invertidas da mesma história, uma contada de frente para trás e outra de trás para frente, é normal que alguns acontecimentos se encaixem melhor na primeira versão e outros, na segunda. Os romances policiais, por exemplo, em que são perseguidos e descobertos os indícios de um crime já cometido, mas do qual nada se sabe, bem poderiam fazer mais sentido lidos ao contrário. Assim leríamos a história de um crime que deixou vestígios e que, afinal, põe um monte de gente ensandecida por decifrá-lo, e o leitor, que já sabe o final, ou melhor, o começo, ficaria rindo eternamente dos personagens, ou esperando-os confessar-se, como o inspetor Porfiri Pietróvitch faz com o pobre Ródia.

Por isto, não é completamente destituída de verdade a história de um Deus que sabe sair da tumba sair novamente da tumba. Não é imediatamente errado pensar que a secularização cederá lugar, ou já cedeu, a energias civilizatórias armazenadas na periferia da história. Mas esta é uma história invertida, que depende da ideia de que aquela outra história, a da secularização, está redondamente enganada, e este “redondamente” não é por acaso. A grande bobagem é redonda como um sistema filosófico. Dizer que o Brasil é o país do futuro é dizer também que o mundo que um dia prescindiu do Brasil não tem mais futuro, e que nem o Brasil o tem. Obviamente, parte dessa história é verdadeira, parte é falsa, e nenhuma está inteiramente correta.

O Brasil não é o país do futuro, inclusive de Deus, e eu não deposito nele, no Brasil, entenda-se, todas as minhas esperanças civilizatórias. A Europa também não matou Deus e chegou ao termo de sua história. Mas vamos resistir a este impulso óbvio e caricato das inversões. Isto não significa que não haja esperanças civilizatórias que incluam o Brasil e Deus. Mas também não significa que essas esperanças civilizatórias incluam necessariamente o Deus do Brasil. A expressão “Deus brasileiro”, se você pensar bem, contém o cerne da inversão dessa teoria fajuta da história linear progressiva civilizatória etc. A ideia de um país do futuro, guardador do sagrado, é na verdade uma ofensa. Ela parte do pressuposto de que o Brasil e Deus representam tudo que a história negou, e que um dia reclamarão seus direitos e salvarão a humanidade. Mas não é bem assim.

Se a história foi negada, o Brasil e Deus não passam de restos mortais de uma civilização à deriva. Não haverá mais direitos que reclamar nem nenhuma salvação para a humanidade, que não estará mais nem aí para salvação nenhuma. Portanto, a nação que tem o privilégio histórico de ser a nação fundamental da era pós-histórica é uma nação que não tem privilégio algum, e esta história é uma farsa. Nenhuma das suas versões fala a verdade. E, no entanto, ainda há história na Europa, ainda há Deus, como às vezes também há história no Brasil, e às vezes também, apesar de tudo, há Deus.

Seja em qualquer parte do mundo, é o mesmo Deus, e a mesma história, difícil de contar numa história só, ou teoria. Só não embarque nesta história invertida de que a fé sincrética da, como dizia um amigo meu, “primeira igreja da mesquita judaica católica evangélica xamanística do branco velho sanyasi e que toma um chazinho” vai salvar o mundo. Isto é tão tosco como o “projeto otimista progressista científico tecnológico inovador cibernético eurocêntrico cristão mas secular porque matou Deus”. Recentemente, vim da tão religiosa Ibéria, da tão secular Europa, e minha convicção de que esta tese é inconsistente tornou-se ainda mais forte. A história é bem outra. Pretendo contá-la em textos seguintes.



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