sábado, 30 de agosto de 2014

Esquerda, direita e cristianismo


Quando a realidade encontra-se quase inteiramente desprovida de espírito, os maniqueísmos dominam as mentes. Acontece algo muito estranho com os homens, uma coisa que, para tentar explicar, terei de lançar mão de algumas expressões aleatórias absurdas, de aparência filosófica, que minha imaginação começa a fabular: poderia ser uma espécie de “vontade de dilema”, ou “complexo de asno de Buridan”, ou uma doença qualquer que dispõe a pessoa constantemente de cabeça para baixo, como um pêndulo.

Quando alguém está de cabeça para baixo, pesa e oscila, mas não pode andar, não sai do lugar. Trata-se de uma tendência iniludível à grande cabeça, seja a do pêndulo ou a do asno. Mas pelo menos o asno tem a vantagem de se deixar guiar. E numa passagem filosoficamente penetrante e poeticamente surpreendente, o asno deixou-se montar pelo mais sábio dos homens, no meio da multidão. O homem que montou o asno era Deus.

Na arte heráldica, muitos impérios, países, províncias e cidades se decidiram sabiamente pela águia bicéfala. Vale muito a pena verificar a beleza e a diversidade com que esta imagem aparece e reaparece na história dos povos, do Império Russo ao pequeno município de Toledo, a “glória da Espanha”. Recuso aqui propositalmente a dupla face pagã de Jano, pois procuro antes uma imagem cristã. A imagem da águia é, sem dúvida, como a de Jano, símbolo de decisão, de exercício corajoso da capacidade de escolher. Não raro a águia de duas cabeças traz uma espada, ela corta, divide. Mas traz também uma coroa. É símbolo, além da divisão, de uma unidade e de uma integração conquistadas. Mas o homem, às vezes, diante da possibilidade das duas cabeças, sucumbe ao peso de uma única e anencéfala figura.

Refiro-me à anencefalia dominante no debate político. Não quero simplesmente denegrir todo debate político, mas aquele a que estamos mais expostos, os feitos pela grande mídia anencéfala e pela pequena mídia social bicéfala. Ter apenas uma cabeça é o lado bom da grande mídia, só que, como um pêndulo, ela está de cabeça para baixo e oscila. Ter duas cabeças é a lado ruim do debate político, porque, ao contrário da águia, ele não é exemplo de uma visão alargada, de integração conquistada a muito custo, mas sim de um maniqueísmo cego. Um águia poderia ter quantas cabeças quisesse, mas se não tivesse nenhum olho, seria como não ter cabeça nenhuma. A maior qualidade da águia certamente não é refletir, mas enxergar.

Agora o leitor esqueça esse introito retórico e atente para o que vou dizer a seguir: sou cristão. Já disse isso várias vezes nestes textos rabiscados neste canto de parede virtual. Sou cristão. E sabe qual o significado disso para minha posição político-eleitoral? Absolutamente nenhum. Como cristão, tenho apenas, o que não é pouco, uma grande responsabilidade para com meus concidadãos, com o passado e com o futuro de meus concidadãos mortos e ainda não nascidos, e uma obrigação severa de não me deixar enganar. 

Um líder religioso nunca é um bom político. Um bom político saberá ser religioso. Cristo nunca falou da relação entre um político e um profeta. Aliás, ele rompeu esta relação que o judaísmo havia criado. A única vez em que comentou sobre política e profecia foi para falar de falsos profetas, que a rigor nem chegam a ser profetas. Disse, numa imagem, que conheceríamos as árvores pelo seu fruto. Daí a minha única e exclusiva obrigação como cristão diante da política partidária: tenho de avaliar bem as árvores pelos seus frutos, e não pelas cores, pela grandeza, por ser velha ou nova. O que importa é se o fruto é bom de comer. Pode até ser uma árvore magra e feia.

Esta é uma recomendação intencionalmente vaga, a fim de deitar por terra todos os símbolos e sinais que os judeus valorizavam na distinção de homens para fundar neles relações de poder. Esses símbolos e sinais não tinham nenhum valor para Jesus. Não tinham nenhum valor para Paulo. “Havendo profecias, desaparecerão.” (1Co 13.8). O que ocorre atualmente no Brasil é que vemos uma verdadeira vetero-testamentalização da Boa Nova. Suntuosos templos, indumentárias, só falta os ditos cristãos pedirem a seus fiéis que se circuncidem para regredir inteiramente aos rudimentos diabólicos do mundo da Lei.

Um desses rudimentos é o poder político, a autoridade religiosa imiscuída com a política, e que Jesus aboliu. A única coisa que ele disse, diante de Pilatos, não era nada a respeito de ninguém, nada a respeito do próprio Pilatos, mas algo sobre a autoridade em si. Ele disse que ela era “dada”. Noutras palavras, é algo que não se alcança com as próprias forças.

Quando me perguntam se sou de esquerda ou de direita, digo que sou cristão. Não por ser uma resposta, mas sim uma recusa da pergunta. Porque essa pergunta soa para mim como se alguém me perguntasse se sou judeu ou grego, se sou vegetariano ou carnívoro, ou se prefiro a segunda ou a terça-feira. Ora, nada disso importa. Tendo somente vegetais, como somente vegetais. Sei que, no quadro histórico dos últimos anos, a esquerda foi mais competente na América Latina em vários aspectos, que ela é menos vendida externamente, e mais internamente. Por isso ouço dos meus colegas que tenho um dilema: tenho posições de esquerda e sou cristão. Mas em vários outros aspectos certamente não sou de esquerda, e não seria verdade dizer que sou de direita. Simplesmente a minha identidade de cristão é muito mais rica, mais complexa, mais parecida com a vida, e eu diria, mais inteligente, o que torna a dicotomia completamente inútil. Consequentemente, os candidatos, todos, completamente inadequados.

Obviamente, isto não me tira a responsabilidade diante da escolha, apenas não devo me iludir quanto ao alcance da política. Recentemente um respeitado jornal do país publicou uma lista de valores ideológicos de acordo com os quais alguém se situaria à esquerda ou à direita do espectro político. Perdoem o trocadilho fantasmagórico com o espectro. Por exemplo, quanto à posse de armas, eu seria de esquerda, pois concordo com o desarmamento da população civil. O mesmo quanto a questões migratórias, pena de morte, etc. Quanto a questões sexuais, simplesmente não me enquadro em nenhuma das posturas no que diz respeito aos direitos civis, mas se alguém me perguntasse mais claramente, eu diria mais firmemente que dizer que o homossexualismo é algo a ser aceito não é a mesma coisa que dizer que é algo a ser encorajado.

Quanto às raízes da pobreza e da criminalidade, eu seria igualmente de esquerda e de direita. Pois considero ambas produto da falta de oportunidade e também da maldade intrínseca das pessoas. Mas a diferença entre um homem de direita e um cristão é que o primeiro acha que somente os outros são pobres ou criminosos, enquanto o cristão vê a si mesmo como um criminoso e, quando não é pobre, como responsável pela pobreza em variados sentidos. Quanto às drogas, não recomendo seu uso assim como não recomendo sua proibição. Quanto à religião, não acho que “acreditar em Deus” torna as pessoas melhores, apenas acho que Deus é a única coisa que pode tornar as pessoas melhores.

Sendo assim, só posso chegar à conclusão de que aquela enquete era boba demais. Que as perguntas eram muito mal formuladas, eram na verdade pegadinhas, como as que os escribas e fariseus gostavam de fazer para pegar o mestre. Se ele respondesse de um jeito, tinham uma acusação na manga, se ele respondesse o contrário, tinham outra. "Devemos pagar impostos?" E Jesus respondeu com uma pergunta simples: de quem é a imagem na moeda? 

Eu pergunto: de quem é a imagem na moeda? De quem é a imagem na moeda? Ora, é sempre deles, os que querem o poder. Ela os reflete. Porque o verdadeiro poder não é de quem quer. Mas se o fim dessas dicotomias é o discurso da pretensa "nova política", eu gostaria de dizer que isto simplesmente não é política. Sem dúvida é uma Nova, mas que já tem mais de dois mil anos.




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