quinta-feira, 24 de julho de 2014

Desfazendo mal-entendidos sobre escritos sagrados



Este mês, venho devidamente sendo tragado pela atividade burocrática universitária. Por esta razão, e por outra que explicarei logo em seguida, aproveito a oportunidade para publicar agora reflexões que, de outra forma, seriam tragadas – mais do que eu pela vida universitária burocrática – pelos escombros milenares dos servidores de e-mails. Tomarei a liberdade de publicar aqui parcialmente, na forma de um ensaio corrido, um par de mensagens trocadas com uma jornalista que me procurou, muito gentilmente, explicando que estava escrevendo uma matéria sobre a “utopia do conhecimento”, e queria saber se os escritos sagrados poderiam ser compreendidos nesta categoria. Em resumo, a “Bíblia” ou o “Alcorão”, por exemplo, poderiam ser caracterizados como projetos de intenção totalizadora? Poderiam ser, num caso como no outro, o “livro do conhecimento”? A resposta que dei a esta gentil jornalista é o que transcrevo a seguir, pois, apesar de dizer que a teria ajudado muito, sua matéria tinha ficado enorme e, exatamente em virtude de meus esclarecimentos, a questão dos livros sagrados tinha caído fora de sua consideração. Eis porque talvez seja importante reproduzi-la aqui. Eis o que respondi a ela:

Você deve conhecer o conto do Borges “A biblioteca de Babel”, é hilário, e mexe exatamente com esta grande contradição que é o desejo de autotransparência completa do conhecimento humano. Esse desejo, no conto, é contraditório ao ponto do ridículo, porque uma biblioteca que contivesse todos os livros possíveis conteria a teoria verdadeira do mundo e também a refutação desta mesma teoria. Sem contar com o problema lógico de saber se ela poderia conter o “catálogo dos catálogos”, que certamente não poderia conter a si mesmo. Tais paradoxos servem para ridicularizar esse desejo de completude na organização do saber, que é um desejo vão, isto é, uma “vaidade”, naturalmente, assim com a torre, destinada ao fracasso. Mas esta é uma crítica da ambição de autotransparência completa do saber humano. Não necessariamente toda forma de organização, catalogação, etc., é ambiciosa a este ponto.
Aproveitando, digo que nem toda literatura sagrada contém esta pretensão. Pelo contrário. A Torá hebraica está repleta de ressalvas contra este ideal de autoperfeição ou autoconhecimento completo, entre as quais o próprio pecado original. A Torre de Babel é claramente uma imagem crítica deste ideal. O que temos é a tentativa de organização de um povo, em primeiro lugar através da codificação, o mais completa possível, de suas leis, a lei de Moisés. E depois que os judeus retornaram do exílio na Babilônia, fizeram um esforço de recontar a história de seus próprios antepassados, o que deu origem ao livro das Crônicas. Não identifico tais iniciativas com um ideal de organização ambicioso. Tem a ver, antes, com a memória, com não deixar as coisas caírem no esquecimento, e não com organização completa e sistemática de tudo. O Antigo Testamento contém também livros de sabedoria, provérbios, canções (os Salmos), poesia, e o enigmático e teatral livro de Jó, talvez o mais antigo da Bíblia. Ou seja, não há um princípio de organização, mas apenas o desejo de não se deixarem perder textos considerados exemplares para um povo e sua formação.

Já a Bíblia Sagrada usada pelos cristãos hoje – vale ressaltar alguma diferença entre muitas versões e traduções dela, inclusive a diferença entre o cânon considerado sagrado por católicos e protestantes – não é uma “organização”, mas simplesmente, também, um conjunto de livros oriundos de uma mesma tradição, a judaico-cristã. A coisa nem é tão organizada assim. A Bíblia contém vários livros escritos em momentos distintos, por muitos autores, e demanda um grande esforço de conciliação de partes aparentemente contraditórias. O Novo Testamento contém quatro evangelhos escritos por diferentes pessoas para públicos diferentes. Reúne, em sua maior parte, as cartas de Paulo de Tarso às igrejas que ele fundou pelo mundo greco-romano. Os padres da Igreja, com o auxílio da tradição, foram identificando os documentos que mereciam constar neste grande livro que é a Bíblia hoje, mas ela nunca foi um projeto de completude e organização sistemática. Na verdade, para isso existe a teologia e a exegese, que, movidas por um espírito científico, por assim dizer, pretendem organizar melhor as coisas. Há uma parte da teologia que se chama "teologia sistemática". Mas, repito, esse não é o tipo de projeto de livros sagrados. As literaturas sagradas das grandes religiões fornecem uma totalidade que se forma na própria visão de mundo, mas não como ideal de organização ou utopia do saber.
Talvez essa ideia possa ser aplicada a uma religião em particular, o Confucionismo. Confúcio insistiu na catalogação de formalidades, dos costumes morais, dos hábitos, dos cuidados com a saúde, o corpo, as regras de culto, etc. Mas isso é, muito semelhantemente ao projeto de Moisés, uma tentativa de organizar um povo, de lhe dar leis, e não de escrever o "Livro dos livros".
Em suma, todas essas são tentativas de “dar ordem ao caos”. Porque o ser humano é essa tentativa. Mas se entendo bem o núcleo da sua pergunta, é quando esse desejo se torna obsessivo, de reunir “num único livro” a totalidade do conhecimento essencial do mundo. Se for isso, digo que este, ao contrário de ser um projeto dos livros sagrados, é um projeto do homem moderno.

O homem moderno sim é que tem ambição de sistema, de catalogação, de organização da informação para o conhecimento completo da natureza, da vida e da história. O enciclopedismo é uma iniciativa do século XVIII, no iluminismo. Alguns sistemas filosóficos, como o de Hegel, foram também ambiciosos a este ponto de ser uma teoria de tudo. E as tecnologias da informação tentam fazer algo parecido. Mas o resultado é, novamente, o oposto do que se pretendia. Com tantos bancos de dados, temos hoje muito mais caos de informação do que antes. A este respeito, os livros sagrados, pelo menos os da tradição judaico-cristã, estão o tempo todo chamando atenção para os perigos do conhecimento e autoconhecimento completo.

O cristianismo é um sistema na medida em que é uma visão de mundo. Neste sentido, ele diz o essencial, mas o essencial, neste caso, pode ser pouca coisa, apenas o essencial, e não “tudo”. Por isso, o estilo do cristianismo é de certa forma oposto ao do confucionismo – talvez também ao do judaísmo – com seu sistema de regras exteriores. O essencial do cristianismo está reunido numa oração, o “Credo”, estabelecido pelo Concilio de Niceia no ano 325, ou talvez na regra de ouro: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Eu posso dizer que o mesmo princípio vale para as outras sete grandes religiões mundiais.

Enfim, a noção de totalidade para um escrito sagrado é diferente da mesma noção de totalidade como empreendimento humano de organização ou utopia do conhecimento. Este último é que é impossível e ridículo, porque é analítico, catalográfico, científico, como queira. O primeiro, não. É a totalidade de um “modo de vida”. Não sei se contribuí alguma coisa para o seu trabalho. Espero que sim. Grande abraço.



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