sexta-feira, 27 de junho de 2014

Quem é mais pretensioso, o erudito ou o especialista? O exemplo do "Jesus histórico"


Há muito tempo uma questão incomoda muito o nosso tempo. Quem é mais pretensioso, alguém que busca a sabedoria ou o assim chamado especialista? O erudito ou o expert? O que parece mais impositivo, é alguém dizer que acredita em algo porque está amparado, e isto significa protegido e aquecido, por uma estável literatura e por uma longa tradição, ainda que repleta de incongruências, ou alguém dizer algo repetindo o maior pesquisador no assunto? Eu cá tenho uma vaga suspeita.

Obviamente, ninguém é louco o bastante para deitar fora todas as descobertas científicas e a crítica histórica na ciência do homem, como ninguém deveria ser louco o bastante para pautar sua vida por todas as descobertas científicas e a crítica histórica na ciência do homem. Uma questão insignificante sobre os males ou os benefícios do café, por exemplo, leva a extraordinárias discordâncias científicas. Um homem que oriente seu comportamento por essas pesquisas, que na verdade mais valem como manchetes de jornal e revistas de saúde (outra doença do nosso tempo) pode numa semana se abster completamente do café e na outra, baseado no próximo resultado de uma estatística, voltar a se empanturrar de cafeína feito um louco.

Recentemente, o escritor e professor iraniano-americano Reza Aslan impressionou o mundo com um livro desmistificador, “Zelota – A vida e a época de Jesus de Nazaré”, sobre o famoso Jesus histórico, que se contrapõe, tanto enquanto objeto de pesquisa como em suas conclusões, à ideia de Jesus, o Cristo. “Best-seller” número 1 do New York Times, o livro de Aslan é uma investigação intensa, respeitada entre inúmeros especialistas em Novo Testamento. Mas todos os “scholars” que louvaram a organização e a seriedade da obra também concordaram em que ela não traz realmente nada de novo sobre o tema. 

Eu, na verdade, não posso sequer pensar em rivalizar com estes especialistas. Só posso dizer que a “Nota do autor” no início do livro depõe muito contra ela. É um texto ressentido e amargo, de alguém que, decepcionado com Jesus, o Cristo, decide pregar o Jesus histórico com toda a avidez com que um dia pregou o primeiro. É isto que Aslan é, um “Paulo” do Jesus histórico, que proclama fortes evidências de que o Messias não passa de um entre tantos outros messias da época. Esta tese não é nova. Nem é boa. Mas o estilo e a montagem de Aslan, como se fosse um filme, são excepcionais. Às vezes, é fácil identificar quando um livro é uma obra de “scholarship” e quando é uma obra de ideologia. Esta diferença, em “Zelota”, é muito sutil. 

Mas quantos outros “especialistas” em Novo Testamento diriam o contrário, com os mesmos fascinantes estilo e seriedade? Qualquer senso científico autêntico, sobretudo o histórico, não pode jamais ter a pretensão de decidir qualquer coisa de uma vez por todas. Certamente algumas coisas estão seguramente decididas, e isso de um modo estranhamente peculiar. Decidiu-se que nada está decidido. Não foi Paulo, mas não sabemos quem foi, o autor da segunda carta aos tessalonicenses. Alguém imitou, mas não sabemos quem foi, o estilo de Paulo na carta aos efésios. Mas nem mesmo este é, absolutamente, no mais fraco sentido, o caso do Jesus histórico. 

Nesta questão, não está em jogo um escândalo histórico, um detalhe doutrinal, nem mesmo um grande aspecto doutrinal, mas a questão fundamental de saber se Jesus é de fato o Cristo ou se não passava de mais um candidato a messias de sua época. Isto é o cerne do cristianismo e não algo que se decide com documentos. Uma coisa é investigar se existiu inquisição protestante, outra é saber se existiu Jesus. O poder implacável do Império Romano, frequentemente levantado na desqualificação da hipótese religiosa, é na verdade apenas um contexto diante de uma vasta literatura profética judaica de 700 anos a.C e que, quase meio milênio antes de que Roma começasse a anexar suas primeiras províncias, avisava da vinda de um messias. É por acaso de se espantar que o verdadeiro Messias tivesse nascido numa época de opressão violenta em que vários homens reclamavam igualmente ser o messias? Eu penso, sinceramente, que não. E também penso que isto tem outras implicações talvez mais interessantes. Por exemplo: já se ponderou o quanto esta circunstância faz da anunciação de Maria uma aceitação corajosa? Ela seria mãe do Messias numa época conturbada de muitos “messias”, muitos sem qualquer credibilidade, inclusive o verdadeiro.

Mas, voltando aos especialistas, esta questão nunca obteve a quietude que deveria ter obtido depois da obra de Günther Bornkamm “Jesus von Nazareth”, de 1956. Esta obra explica, honestamente, as profundas dificuldades no tratamento do Jesus histórico, a íntima relação que, a despeito do que se pretende, este tema tem com questões teológicas. Esta mesma honestidade marca os estudos de Bornkamm sobre Paulo, de 1969, e que eu tive a graça de comprar, abandonado num sebo de Teresópolis, por míseros dez reais. Certamente não é e dificilmente seria qualquer número na lista de qualquer jornal. Com isto eu não quero, nem de longe, entrar na polêmica. O que eu quero é defender, mínimo que seja, um ponto de vista sobre o assunto que não seja o do especialista. Por que esse ponto de vista não é, nem de longe, o mais confiável.

Se alguém precisa de uma obra para não crer em Jesus, ele não precisa de uma obra. Se alguém precisa de uma obra para crer em Jesus, ele não precisa de uma obra. Agora, se alguém não crê em Jesus, ele precisa de uma obra, pois terá de eventualmente se explicar a outras tantas pessoas que creem. E se, pelo contrário, alguém crê em Jesus, também precisa de uma obra. Ou melhor, precisa necessariamente de muitas obras. Uma basilar, a literatura sagrada. Outras tantas obras que o ajudará a explicar a outras tantas pessoas os motivos de sua crença. Precisará também de outras tantas obras contrárias a sua posição, para não murchar nessa crença ingênua e insossa que não passa pela provação e pelo teste. E, mais importante do que tudo isso, precisará de obras da fé, a manifestação concreta, através da ação, daquele amor e daquela esperança que produzem os frutos que os ramos produzem, quando enxertados na videira.




Translate