terça-feira, 27 de maio de 2014

O que é aventura?



No meu tempo de estudante secundário, quando o professor nos passava um trabalho sobre determinado assunto, não corríamos para o computador pessoal, ainda não popularizado naquela época. Em 1998, por exemplo, quando eu ainda era um estudante secundário, apenas uma em cada cem pessoas usava internet nos países em desenvolvimento. Se fosse verdade, seria um saudosismo meramente truísta dizer que corríamos para a biblioteca. Primeiro, porque nem todo adolescente corre para a biblioteca antes de correr para o bebedouro, e isso é perfeitamente saudável, o contrário é doentio. Mas, do que direi a seguir me lembro muito bem. Na escola em que eu estudava, havia na biblioteca uma certa prateleira que ficava, não sei se propositalmente, à altura de um braço esticado, desfilada de ponta a ponta por pequenos livros brancos, alguns acinzentados pelo uso e pelo tempo, todos de invariáveis tamanho e comprimento, embora de espessuras diferentes, e que começavam, indiferentemente, pelo mesmo puro e simples título “O que é...”. Chamava-se “Coleção Primeiros Passos”, e foi, segundo parece, um enorme sucesso editorial.

Li vários deles. “O que é capitalismo”, “O que é anarquismo”, “O que é filosofia”. Pode-se notar que eu era um estudante muito teórico, mas nunca li, por exemplo, “O que é teoria”, pois achava o título bobo. Queria saber teorias, não o que era uma teoria. Li com muito entusiasmo “O que é dialética” e não entendi nada. Mas não me deixei enganar. Suspeitei, apesar do livro, que dialética fosse algo muito mais interessante do que o livro sofregamente tentava explicar, e pensei que um dia eu ia poder ler livros melhores sobre isso, o que foi verdade. Até hoje não paro de ler livros sobre isso. Não li “O que é música” ou “O que é arte”, embora me interessasse muito por tais assuntos. Neste caso em particular, havia livros na biblioteca que serviam melhor. Ninguém dá seus primeiros passos em arte lendo sobre arte. Eu ia direto aos livrões coloridos ilustrados, com reproduções de pinturas e esculturas de toda história. Quando entrei na universidade, acreditei ter dado meus primeiros passos em tudo que já devia, e que era hora de passos mais largos. O único que li, desta época, foi “O que é ideologia”, porque até na universidade diziam que era um bom livro.

Na universidade, tive uma vida de descoberta tão ativa e maravilhosa que aos poucos fui também descobrindo que aquele era um lugar do qual nunca mais gostaria de sair. Fiz isso me tornando professor, em vez de repetir as matérias para sempre. Não só por causa dos livros, mas porque lá havia muita gente que gostava de livros, e que tinha a minha mesma seletividade. Eu logo identifiquei os clássicos que devia ler, mas tinha outros amigos, mais velhos, que também não conseguiam deixar o ambiente universitário, e que lá também namoravam, jogavam xadrez, compartilhavam gosto musical, e bebiam mais do que deviam. Todo este preâmbulo, esta prolixidade, para recordar um antigo amigo, jogador de xadrez. Pois havia uma pequena livraria no final do corredor da faculdade de filosofia. Uma vez entramos lá juntos, eu não comprei nada, e ele, depois de muito vasculhar o acervo, adquiriu um livrinho branco pequeno daqueles, com o título “O que é aventura”.

Senti um misto de estranheza e compaixão. Julguei que ele não tinha mais idade para aqueles livrinhos brancos. Pensei que “aventura” não é o tipo de coisa sobre o que se faz uma teoria. Por exemplo, o que alguém teria a dizer sobre aventura? Isto não parece estar ligado com nenhum sistema filosófico, nem sociológico, com nenhuma corrente política, período histórico ou teoria econômica clássica, nem com literatura russa ou inglesa, “jamais leria um livro destes”, disse para mim mesmo. Hoje, daria mais do que o dobro do dinheiro equivalente ao que ele pagou naquele momento por aquele livrinho branco. Na internet, só há vestígios deste livro. Pode-se desvendar o nome do seu autor e ver a sua capa, mas não se pode lê-lo. Está esgotado, não se tem na biblioteca da universidade. Deve haver em alguma biblioteca de escola secundária. Mas uma coisa é certa: preciso ver o que esse livro contém. Pois descobri, depois destes anos, que aventura não só tem a ver com filosofia, com sociologia, política, economia, literatura, etc., mas que pode conter a melhor resposta, prática e teórica, sobre tudo isso.

Até muito pouco tempo atrás, eu acreditava que as teorias tinham que ter uma forma definida. Que um sistema filosófico tinha que ser otimista ou pessimista, tinha que dizer a verdade do que o autor estava convicto de ser a verdade ou ser a crítica que alguém considerava verdadeira contra o que um outro autor estava convicto de ser a verdade. Achei que o mesmo valia para os demais âmbitos do saber. Se fosse um livro de teoria política ou teoria da história, tinha de ser igualmente movido pela Verdade, isto é, tinha de ser uma explicação de como o mundo político e histórico funcionavam, e não meramente a descrição de fatos políticos e históricos que um dia ocorreram. Enfim, eu era um idealista, no sentido filosófico da palavra. Queria saber a lógica por trás das coisas. Se fosse um livro de história da literatura, eu queria que fosse uma descrição rápida dos principais autores, obras, estilo e período histórico, e depois ia buscar na prateleira o romance ou livro de contos ou poemas que passaria portanto a ler. Eu gostava de xadrez, mas nunca me interessava um livro sobre o tema “esporte”. Eu gostava de psicologia, mas não tinha curiosidade nenhuma sobre “adolescência”. Mas então eu descubro que não só a filosofia tem a ver com esporte e com adolescência, mas também que “aventura” é a melhor explicação disponível sobre o mundo.

Sou obrigado a escrever este texto sem ter lido aquele livrinho branco, isto é, sem ter dado os meus primeiros passos no assunto. Na verdade, quando larguei o meu primeiro choro ao nascer, já estava no meio da aventura. Quando comecei este texto, já tinha assumido todo o risco. Não há primeiros passos da aventura. Quando alguém põe o pé fora de casa, já está a mil léguas de distância.

Nestes anos de estudos de filosofia, percebi que os filósofos têm um gosto muito peculiar pelas palavras em pares. Somente em pares é que as palavras podem exercer uma função de “conceito”. Assim, por exemplo, pessimismo e otimismo. Mas há outros conceitos mais complexos, como liberdade e determinismo. A primeira dessas palavras designa a capacidade de um ser de dar a si mesmo a regra segundo a qual ele deve se comportar de determinada maneira. Neste caso, “regra” quer dizer “motivo” e “comportar-se” quer dizer “agir”, ainda que por omissão. A segunda palavra quer dizer que tudo é uma ininterrupta cadeia de acontecimentos de acordo com uma determinada regra que pode ser ou não conhecida. Neste caso, “regra” quer dizer “lei” e acontecimentos querem dizer “causas”. “Tudo” quer dizer “natureza”, pois o determinismo só acredita no que é natural, não no sobrenatural. Daí derivam-se outros pares de palavras: materialismo e espiritualismo ou, para o caso de as regras poderem ser conhecidas ou não, dogmatismo e ceticismo e assim por diante. Em filosofia, as palavras são grudadas com seus antônimos, e isso é que significa dialética.

Se você quiser defender a ideia, na verdade bem plausível, porque não é filosófica, de que alguém pode ser ao mesmo tempo livre e determinado por causas, você terá que dizer em que sentido alguém é livre, e acrescentar que noutro sentido bastante distinto é que ele pode ser considerado como determinado. Quando você fizer isso, terá criado uma melhor caracterização das palavras ou uma melhor determinação para os conceitos, para que as duas coisas aparentemente contrárias possam conviver. Isto porque você acha bastante mais razoável a convivência dessas coisas contrárias do que a obrigação de ter de aceitar que o homem é sempre e somente livre, sob qualquer aspecto, ou sempre e somente determinado, sob todos os aspectos. Quando você então tiver feito as devidas correções nas palavras para que possa ficar com as duas ideias, então terá feito dialética, terá virado filósofo, e também terá criado um novo par de conceitos. Você verá que aquele aspecto segundo o qual o homem é livre e aquele outro, segundo o qual ele é determinado, formam um par de palavras, que agora são conceitos filosóficos. Você entrou num jogo sem fim. Mas não se desespere, pode ser que você goste do jogo.

O problema é que é um jogo meio sem graça. Não só porque parece que nunca vai acabar, mas também porque parece que os movimentos são os mesmos, apenas mudam as palavras. Pode ser que seja muito divertido pensar nas palavras certas para expressar o que você quer dizer, mas o jogo, enquanto tal, é previsível. Para resolver o dilema criado por duas palavras grudadas, ou você fica com apenas uma delas e descarta a outra, o que vai deixar você com um insuportável sentimento de erro, ou você vai conciliá-las criando mais duas palavras grudadas. Para muita gente é divertido. Para a maioria das pessoas é um jogo chato.

É chato porque parece que não vai nunca aparecer uma palavra que não venha grudada e acabe com tudo. Seria até ruim, porque o fim do jogo também é chato. Mas um jogo só pode ter graça e ser realmente divertido se houver a real possibilidade de acabar. Pode ser que você vença o jogo, o que seria ótimo. Mas você só vai desfrutar o gosto da vitória porque saberá que esteve todo o tempo perto de perder. Isto, meu amigo, não é filosofia. Parece dialética, pois tem palavras grudadas, mas não é. Você não tem como querer ganhar e perder ao mesmo tempo, da mesma maneira como você não quer abdicar da ideia de que é livre e também é causado. Este é um jogo diferente, onde você só tem duas opções: ou você se mantém vivo até o final, que você não sabe quando é, ou você morre, que é o final antes do final. Isto não é dialética. Isto é a própria vida. Aventura.

O final antes do final pode significar que você poderia ter vivido um pouco mais, e alguma novidade poderia surgir, que você nem imaginava. Pode também significar que você quis sair do jogo, matar-se, o que é muito ruim, porque isto faz de você uma pessoa sem senso lúdico, humor, coragem, fé e esperança, que são ingredientes do jogo. O mais divertido, nisto tudo, é também o mais terrível. Na vida, passamos por provas, batalhas e crises profundas, onde o risco de morte é iminente, poderoso, e você pode ter que se chocar com seus próprios limites. Pode ser até que você descubra que tem um limite, um senso lúdico, um humor e uma coragem muito maiores do que julgava ter. Pode ser até que você tenha de abraçar uma fé impensável que nunca quis ter. O jogo tem regras muito simples: se você não prosseguir, morre. Se você prosseguir,...

Na aventura, o momento mais importante, mais tenso e cheio de significado, é a crise. É um momento decisivo, que a linguagem médica ajuda a explicar. Suponhamos que alguém esteja com uma crise de asma. Segundo o determinismo, ele pode morrer. Mas acontece que nenhum médico sensato sabe o que acontecerá depois da crise. Pode ser que a crise passe. Suponhamos que alguém esteja com uma crise de abstinência do álcool. Pode ser que ele estoure os miolos de angústia e desespero, mas pode ser que ele aguente um pouco mais, e a crise passe. Na aventura, conhecendo sua regra tão maravilhosamente vaga, a única recomendação é aguentar um pouco mais. Os romances de aventura, com seus heróis, são divertidos apenas porque estes enfrentam incríveis batalhas. E, ao contrário dos filósofos, os heróis são grandes não porque têm grandes certezas, mas porque têm grandes esperanças.

Essa me parece uma excelente explicação do mundo, melhor que qualquer teoria. Por exemplo, quando falei da crise, mostrei como a aventura guarda tanto o determinismo quanto a liberdade, sem criar outro par de palavras. Na teologia, também, há um interminável problema quanto ao fato de Deus ser absolutamente bom e o mal ser apenas uma ameaça rebelde ou, numa determinada tradição considerada herética ou oriental, que Deus é tanto bom quanto mau. Neste segundo ponto de vista, a vida é monótona, sem aventura e sem riscos. No primeiro ponto de vista, o aventureiro tem Deus a seu lado e uma miríade de monstros, espíritos malignos e sedutores, à sua frente. Aliás, aventura significa, etimologicamente, no latim vulgar, “adventura”, o que está por vir, o que vem aí. Dizem que o cristianismo é uma religião de fracos. De fato, fracos que matam monstros.

Até na filosofia da história, é fácil ver que progresso, retrocesso, teleologia, etc., esses conceitos difíceis, são simplistas demais para descrever a aventura humana debaixo do sol. A boa literatura cristã está cheia deste genuíno espírito de aventura, a que chamamos de peregrinação. Mas o mais estranho é que o homem moderno não está preparado para ela. Tem medo da vida. Primeiro ele faz uma teoria para se assegurar de que tudo está sob controle. Depois ele se arma de garantias de que essa teoria tem grande probabilidade de aplicação prática. Quando sua vida, então, se torna enfadonha, ele pratica turismo de aventura, testa seus limites, quer perfazer o caminho de Santiago de Compostela.

Ele não sabe, mas vai a Santiago de Compostela toda vez que vai ao trabalho. Ele desce de rapel toda vez que volta para casa. Só uma criança sabe verdadeiramente que cada dia que vai à escola tem de matar um monstro. Só ela enfrenta uma crise permanente, que é sua própria formação. E só ela pode descansar, de fato, nos braços de seu pai. Os adolescentes também, de certa forma, quando não estão brigados com os pais e vão buscar consolo nalgum tipo de entorpecimento. Os “crescidos”, que nos entorpecemos também frequentemente, estendemos os braços ao Pai somente quando a crise, com toda sua implacável verdade, mostra qual é realmente a verdadeira teoria da vida. Eu sequer perguntei àquele velho amigo, tamanha e tacanha era a minha certeza, por que ele queria comprar um livro sobre “o que é” o que está por vir.




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