domingo, 27 de abril de 2014

Sobre a pessoa de uma poeta que nunca li


A propósito de uma entrevista de Adélia Prado




Quando este espaço foi concebido há pouco, assumi, no primeiro texto, uma série de compromissos que descumprirei já. Não esperei o momento certo para descumpri-los, apenas ocorreu que não pude deixar de não cumpri-los. Disse que tentaria, a pedido de alguns amigos, tornar minhas ideias um pouco mais difundidas. Mentira. Na verdade, sempre tentei (desde que delas me convenci) tornar difundidas as ideias de outras pessoas. A principal delas é o evangelho de Jesus Cristo. E também não faço isto por amizade aos amigos, mas por amor aos inimigos, como manda a principal ideia desta ideia principal. Refiro-me à regra de ouro do evangelho, à crème de sa crème. Sim, porque também é o que ele tem de mais refinado. Só não sei se sou competente nestas coisas, quero dizer, no amor e na defesa de uma ideia que não é minha. 

Disse que não pautaria minha reflexão, ou melhor, a tal defesa da ideia que não é minha, pela imprensa. Até alguém mencionou contestações possíveis ao parágrafo que continha tal afirmação, mas como não disse a que exatamente se referiam, supus que diziam respeito a ela. De fato, escrevi aquilo por um motivo hiperbólico. Quis aludir, sobretudo, à grande imprensa, ao “tema do dia”, à agenda ensimesmada dos meios de comunicação que ainda monopolizam a conversação pública. Tento ser seletivo quando acompanho as coisas na imprensa, mas mesmo a imprensa, essa derrotada, fragmentada e às vezes diabólica imprensa, não pode deixar de acompanhar as coisas, então agora tenho de me desmentir mais uma vez. Mas digamos que seja uma meia desmentida.

Assinalei que escreveria uma vez por mês, isto é uma verdade por enquanto. Mas afirmei que escreveria também em feriados importantes e datas inspiradoras. Que feriado pode ser mais importante para um cristão do que a Semana Santa? Mas, sinto dizer, este texto não é sobre a semana santa. Se naquela semana, que também já passou, a santa, eu tivesse me ocupado de escrever um texto sobre a semana santa, não a teria santificado. Mas como não se santificam mais, desta maneira, nem semanas e nem datas, desde que uma ovelha se feriu num sábado e mudou para sempre a história deste dia, gastei minha semana santa num lugar muito especial, uma espécie de convento, instituto teológico, espaço de eventos, tudo de uma vez, e, de novo, mais um motivo de desculpas.

Hoje, insistentemente, quero falar das ideias de outra pessoa. Melhor ainda, quero falar sobre uma pessoa, o que, tanto no caso dela como no de Cristo, dá no mesmo, assim como, por exemplo, falar das ideias de São Francisco ou Martin Luther King é falar de São Francisco e Martin Luther King.

Há cerca de um mês, recebi em minha casa meus pais, e tive de me preparar. Comprei uma televisão, de que prescindia há muito tempo. Ao chegar cansado, numa segunda-feira à noite, minha mãe, uma das pessoas mais inteligentes que conheço, recostava frente a ela, envolvida pela entrevista concedida por uma mulher de uma simplicidade inaudita. Era uma poeta, mas poderia ser a minha avó. Falava de seus livros, que poderiam ser de culinária mineira. Expôs, mais que tudo, sua vida, que é igual a que todos, de algum modo, vivem. Ela comentava sobre um deserto e sobre a passagem através do deserto e sobre o valor que significava atravessar o deserto sem amenizações, sem refrescos.

Fui me impressionando com cada frase que ela pronunciava com cuidado, para não ferir seu senso mais claro de auto-imperfeição, e aproveitava os intervalos do programa para debater todas elas com minha mãe. O intervalo era rápido. Imprensa boa esta. Aquela senhora, no meio de uma roda, girava na direção das perguntas que não lhe vinham como dardos e porretes, que é como os jornalistas costumam se dirigir às pessoas em geral. Pelo contrário. Embora ela estivesse na parte de baixo do cenário, e os jornalistas, na de cima, parecia que todos tinham se sentado ao chão, perninha de chinês e mãos no queixo, para ouvir uma história. Parecia que depois ia ter bolinho de arroz e bombom para todo mundo. E teve. Mas só para quem ouviu até o final a longa história que ela contou, de uma menina muito travessa, que atravessou um deserto, e agora não queria nem conseguia mais, por nada neste mundo, ser má.

A mulher era a poeta Adélia Prado. Sua história bem podia ser a da poesia, essa menina travessa. Ela flerta, perigosamente, com grandes transgressões, mas do deserto renasce tranquila, embebida da completa consciência de sua mácula e sua lama. Sua culpa, no entanto, torna-se grande alegria, e só ela sabe como essa transformação acontece.

Falou de muitas coisas, o que normalmente é um erro, quando a pessoa quer e pensa poder falar de muitas coisas. Ela, ao contrário, não queria e não podia. Mas as crianças ao seu redor a enchiam de perguntas, queriam saber da sua história, perguntavam e perguntavam curiosas. E ela, com imensa dificuldade, respondia pressionada, como uma mãe é constantemente pressionada a dar respostas sobre coisas que não sabe, mas tem que dar. Das questões mais eternas, sobre Deus, a Igreja, às mais mundanas, como as relacionadas com a política, foi ponderando, caprichosamente, sem em qualquer momento deixar de referir-se a si própria, como fonte humilde de palpites certeiros.

Foi desmontando muitas ideias absurdas do “mainstream” intelectual. “A beleza é alegria pura”, diz ela, contradizendo a opinião de que a tristeza é condição da criação poética. Disse também que sua inspiração não era nada especial, e que, não duvidem, até isso se quer fazer, para muita gente, algo especial. “Poeta do cotidiano, virou quase um carimbo, né? Então eu acho que todo mundo é poeta é do cotidiano. Porque o que a pessoa tem mais do que isso?” E aqui toda sua personalidade se revela. Mais tarde, é isto que repete, noutras palavras, quando confrontada com grandes questões: “Você é católica, acredita em Deus e sua poesia muitas vezes é um diálogo com a divindade. Gostaria de saber se você passou por momentos de pouca fé, ou nenhuma, e se isso influenciou a maneira de escrever, ou a profusão da escrita, se isso facilitou ou ajudou...”

Ora, o deserto da fé é algo que se tem de passar, responde. Lembra que esta ideia também não é sua, mas de grandes místicos, como São João da Cruz. E aqui estou eu, defendendo a ideia de outra pessoa, que defende a ideia de outra pessoa. De repente, permitam-me este parêntese, tenho a estranha sensação de que se todos fizessem isso, em vez de ficar alucinadamente procurando ideias próprias e originais, talvez descobrissem a única ideia propriamente original que se pode descobrir. E esta envolve algo a respeito da ideia mesma de ideia original.

Adélia menciona São João da Cruz. E segue seu relato de uma noite “escuríssima” da alma, de dúvidas intensas, de desertos da vida e da fé, para concluir com as palavras de Santa Teresa de Lisieux: “Eu estou padecendo a dúvida da fé, mas eu continuo fazendo as obras da fé.” Lá está a poeta com sua cozinha, seus bolinhos de arroz, seu torresmo, seu rosário. Porque o que a pessoa tem mais do que isso? Adélia vem de uma longa tradição, que remonta a Marta, irmã de Lázaro, aquela que fazia o trabalho do Senhor, enquanto Maria o ouvia. “Maria”, poderíamos imaginar talvez o Senhor ensinando, “Marta escolheu a pior parte, para que você estivesse aqui sentada”. O não dito, no evangelho, é sempre tão importante quanto o dito.

Ela seguia fazendo aquilo de que, por vezes, duvidava. Eu aqui sou capaz até de perguntar, e novamente, a pergunta de outra pessoa: Porque o que a pessoa tem mais do que isso? Só que Adélia não é só mãe, avó, cozinheira, é também poeta. Chegou um momento em que parou, e teve de escolher, da pior maneira, a melhor parte. “Quando eu parei mesmo, eu descobri depois que o problema era comigo. Era um problema... eu acho que uma depressão, profunda, uma coisa que eu nem tinha consciência de que estava padecendo”. Sua história é idêntica à de muita, muita gente. Sete anos durou seu deserto. “E como é que isso acabou? Esse período?”, pergunta um dos meninos. “Acabou com a misericórdia divina e um tratamento que eu fiz”. E eu novamente pergunto: Porque o que a pessoa tem mais do que isso? Só quem nunca ficou seriamente doente, só quem não conhece as questões mais elementares sobre ciência e fé, só quem não percebe as profundezas óbvias da incerteza médica, é que pode contrapor duas coisas como estas. Seria como contrapor o disparo e o acerto. Dizer que a perna está em contradição com o passo.

Isto é simples. Não é preciso colocar uma faca no pescoço de Deus para experimentar sua misericórdia. Acabou. Uma depressão profunda acabou. O que se precisa dizer? “Se você encontrasse com Deus, hoje, o que você diria para ele?”, foi a pergunta levantada por um telespectador, um anônimo, cada um de nós, sentado ao chão, ouvindo a história. “O que eu ia dizer, meu Deus? Deixa eu ver...” A poeta perdeu a palavra, demorou muito para recuperá-la. “Não sei, menina. Eu ia rezar, adorar, eu acho que a gente cai num estado de adoração. Porque encontrar com Deus você não vai pedir mais nada, né? Não tem nem jeito de agradecer, você começa a adorar.”

Para que este texto não se torne uma transcrição boba da entrevista, vou me apressar e dizer que Adélia falou muito. Inclusive, sua menção a Saddam Hussein e Steve Jobs, que poderia ser julgada ingênua, piegas, estranhíssima, talvez se pareça com a misericórdia que um homem, certa vez, teve por uma mulher criminosa prestes a ser apedrejada. É incompreensível para o insensível. Eu mesmo muito pouco entendi, do coração profundamente misericordioso de Adélia. Falou dos protestos, do paradoxo que constitui o “desesperado com esperança”, outra chave para o entendimento da ética cristã. Falou da decadência do feminismo.

Filósofa, além disso, falou de como as questões da filosofia, da religião e da arte são as mesmas. Falou das reformas da liturgia católica, dos abusos que “imitam os evangélicos no que eles têm de pior”, deixando entrever, com sutil complacência, algo que têm de melhor. Mas o fundamental, em tudo que disse, foi que “rezar e ler poesia é a mesma coisa”. É a linguagem por excelência. Adélia compreendeu a ortodoxia, e por isso também defende a ideia de outra pessoa. Seu cristianismo não é platônico, moralista, nem o oposto disso. Só pessoas como ela, expulsas da "República", podem entender a poesia que está na verdade. O mito que constitui o evangelho ensinado aos pobres, aliás, o único que existe. A verdade encarnada, bela. Por isso, quando adora, é irrecusável que tenha alguma noção do que adora, de um Deus que se dá a conhecer.

“Quando fala Deus, também, a gente tá falando o quê? Que é Deus? Né? É o absolutamente Outro? Não tem como a gente nem imaginar. Eu acho que a pessoa de Cristo sim, é que é o Deus feito homem, esse sim, é o máximo de poesia que pode acontecer, né? O máximo de poesia. Um corpo, um homem, Deus. Imagina!? Nossa mãe! Só por isso vale a pena viver. Por essa ideia.” É tão óbvio que ninguém pode ir ao Pai senão pelo Filho. Mas não é nada óbvia, a verdade encarnada. É disso que os poetas, afinal, entendem melhor que os filósofos.

Certa vez, Dostoiévski, que prometera dedicar a sua sobrinha Sofia a obra O Idiota, repetiu para ela, em carta, o que já havia confessado a seu editor Máikov, a saber, que a tentativa de construir um personagem positivamente belo estava fadada ao fracasso, pois só pode existir um. “A ideia principal do romance”, dizia o autor, “é retratar um homem positivamente belo. Não há coisa mais difícil no mundo, e isso é especialmente verdade nos tempos de hoje. Todos os escritores – não apenas os nossos mas também os europeus – que tentaram algum dia retratar o positivamente belo acabaram desistindo. Porque se trata de uma tarefa infinita. O belo é um ideal e esse ideal, quer seja o nosso quer o da Europa civilizada, ainda está longe de ter sido alcançado. Somente uma figura no mundo é positivamente bela: é Cristo, de modo que o fenômeno dessa figura ilimitadamente, infinitamente boa já é em si um milagre infinito. (Todo o Evangelho segundo São João é uma afirmação disso; ele descobre todo o milagre somente na Encarnação, na manifestação apenas do belo.)”. Por minha parte, acredito que não fica feio terminar assim, com a ideia de outra pessoa.


 


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