quinta-feira, 13 de março de 2014

O diletante, o professor e o cristão

mas também o que significa, afinal, "O urinol de Voltaire"


Sou cristão. Por educação, católico, por confissão, batista. Por outro lado, e profissão, professor e, finalmente, por diletantismo, prosador, poeta e coisas que o valham. Embora esta descrição pareça pedante, gostaria muito que fosse o contrário. Creio nalguma coisa que não fui eu próprio quem inventou. Não escolhi a instituição onde passei meus primeiros anos escolares. Tenho dúvidas se posso dizer que "escolhi" o corpo de doutrina e a comunidade eclesiástica pela qual me encontro e me sinto abraçado. Escolhi, esta sim, minha profissão, mas vocação é um termo teológico, e já não sei se poderia ser algo diferente de professor. Talvez o mais pedante nesta descrição que ainda irei justificar diga respeito às letras ou à poesia que, apesar de tudo, ainda trazem consigo grande fardo e responsabilidade. Com esta descrição e postagem quero esclarecer, tanto quanto possível, o sentido deste blog.

É o terceiro por mim criado. O primeiro tinha por título "A segunda lança" e continha poemas inteiramente voltados para a temática do destino. Há sete ou seis anos, minha mente pagã prestava grandes sacrifícios verbais, os quais hoje abjuro na maior parte. Livrei-me desta crença inumana na fortuna e, há mais ou menos cinco anos, continuava dedicado aos versos, menos sacrificiais e mais dignos. Chamei ao segundo blog "O livro verde", persistindo em investigar o tema da "felicidade" por outros meios, os do meio ambiente, tudo o que na natureza limita a autorrealização. Mas as conversões ao teísmo, ao cristianismo e à prosa apologética foram se sucedendo, uma após outra, sem que eu pudesse evitar ou frear tal processo. Da poesia, restaram apenas algumas técnicas e o gosto das comparações. Foi quando, além de tudo, a leitura dos Salmos reinventou completamente, para mim, a poética. Mas já em "O livro verde" publiquei textos em prosa, no caminho da tríade "Fé, razão e arte", enquanto tardava-me a aparecer o conceito de um novo espaço que acolhesse o velho interesse pela boa nova, que nos tempos pagãos estava apenas incubado. Os homens sempre querem, quando estão em crise, uma coisa boa e nova. Não basta apenas um destes belos adjetivos. Esta coisa é o evangelho, quando sadiamente compreendido e incansavelmente vivido. Bom e sempre atual.

Enfim, o conceito apareceu. "O urinol de Voltaire" não passa de uma imagem. Ela faz referência à triste circunstância, historicamente controvertida, das últimas horas de vida do iluminista francês, de todos conhecido. Conhecido é também o fato de que ele sofreu dores insuportáveis controladas por ópio, dificuldade crônica de urinar e que desejava enterrar-se no átrio da igreja local e conceder ao abade Gaultier a honra de sua conversão. Sua criada, após lhe perguntar o que seria de seu ponto de vista, visto deste ponto tão próximo da morte, dele teria arrancado a seguinte declaração, inegavelmente documentada, datada e assinada por Voltaire, podendo ser vista na Biblioteca Nacional, em Paris: "Je meurs en adorant dieu, en aimant mes amis, en ne baissant pas mes ennemis, détestant superstition." (Morro adorando a Deus, amando meus amigos, sem rebaixar meus inimigos, detestando a superstição). Recomendo, pelo menos, a obra mais séria que consultei, de J. M. Wheeler and G. W. Foote, Voltaire: A Sketch of his Life and Works. Há, contudo, testemunhos, verazes ou não, lendas de que Voltaire teria agonizado além do humano e, em desespero, tomado do próprio urinol. Muitos repetem lendas como estas, não inteiramente comprovadas, como se o evangelho e a realidade de Deus dependesse delas, embora, é certo, lendas, às vezes, possam ser verdadeiras.

A expressão ocorreu-me durante a leitura de um de meus poetas preferidos, João Cabral de Melo Neto, que no poema hilário "Teologia Marista" supõe que os frades secretamente bebem, no dia de "São Voltaire", a urina do filósofo na forma de uma "honesta cerveja". A mim me interessa, como dizem com redundância os argentinos, a imagem que, além do mais, faz referência a outro triste e polêmico urinol, o de Duchamp, que começou a questionar tudo que havia de verdadeiro na arte moderna, essencialmente subjetiva e confessional. Pois bem, a arte moderna exauriu-se, o esteticismo minguou. A poesia não se renovará mais pela via da autoconsciência histérica e do jogo formal. A verdadeira literatura - já o sabiam Tolstói, Fernando Pessoa, G.K. Chesterton e, acreditem, também João Cabral - é uma forma de pensar, não de cansar. Se a arte e a poesia quiserem sobreviver, não será com as próprias forças, como um dia se supôs. Daí também ter acima estampado, mais ajustada à descrição do que ao título do blog, uma das obras-primas de Caravaggio, "Incredulità di San Tommaso". Esta pintura que, como tantas outras, não ocupa o lugar histórico de habitação do sagrado, segundo certa concepção excessivamente metafísica da história da arte, mas que expressa, para nós, de forma incomum, a tensão e a realidade da cena religiosa, estabelece, ao lado do urinol, o contraponto do sadio em arte.

Em suma, dedico este novo blog a uma velha ideia: a do entrelaçamento e convívio harmônicos de fé, razão e arte. Religião, filosofia e ficção. A intuição é simples e autobiográfica. Temos, todos, nossos urinóis. Expelimos nossas sandices artísticas e os outros que apreciem. De outro lado, estes outros costumam ser os mesmos esnobes que, desde os tempos de Molière, apreciam tudo que é do "gosto", do moderno, do atual. Tal preciosismo é ridículo. Ainda mais radical é a convicção de que, ao largo de toda essa literatice, artisticidade e convicções filosóficas, o homem comum leva uma vida bastante verdadeira: ele cresce por formação moral e religiosa, sai dela a fim de caminhar com os próprios pés, e um dia, mais cedo ou mais tarde, se arrepende, chama o abade. Por isso, embora não acredite na salvação universal, acredito numa ampla e pródiga salvação, porque o evangelho, isto é, a verdade, fora anunciada aos pobres, um milagre tão difícil de se crer quanto na cura do cego de nascença e na ressurreição da carne. O urinol de Voltaire, numa imagem, sintetiza a frase deste mesmo filósofo: "Deus fez do arrependimento a virtude dos mortais."

Por fim, dentro do contexto teológico-político vivido pelo Brasil, atualmente, devo rápidos esclarecimentos. A intenção deste blog não é polêmica, cruzadista, mas é sólida. É apologética, acima de tudo, e apenas neste sentido, digo, defensivo, combaterá a apropriação indevida da palavra da verdade por falsos profetas da direita, sem ética, e a mimetização da ética pelo bom-mocismo evoluído de esquerda, sem nenhuma verdade. Alguns dos antigos textos, que escrevi afinados com este conceito antes de descobri-lo, poderei eventualmente republicá-los aqui. Sem promessas, tentarei atualizar o blog uma vez ao mês, e sempre aos feriados importantes e datas inspiradoras. Se falhar, perdoem-me. Não que não me importe a audiência, mas sim que não importa demasiado. Mais de um amigo sincero pediu-me que tentasse tornar minhas reflexões pelo menos um pouco mais difundidas. Temo que, quando dizem isto, no fundo, estejam sendo menos sinceros do que amigos. Além do mais, o mundo anda cheio de ideias excelentes. Estas, assim como mulheres e pedras virtuosas, existem sempre, o difícil é encontrá-las. Não pautarei minha reflexão pela imprensa, pelo assunto do dia, mas pelo dia do assunto. O dia em que certa coisa reclama ser dita é o dia em que deve ser dita. Sem espírito de ódio, mas de serviço, quero modestamente compartilhar inquietações que julgo reais, ainda que os temas sejam árduos. Por isso, não se deve estranhar aqui, levemente, de vez em quando, também um poema.




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