sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sobre a disposição de escutar



No último mês, narrei aqui uma história sobre o fim da religião que chamei de “A Grande Bobagem”, que muitos, inspirados por uma teoria linear da aventura humana e por uma hipótese sociológica superficial, tomam por verdade. Desta vez, contrariamente, vou falar sobre verdade, que muitos, por não entenderem aquilo que constitui esse conceito tão simples quanto difícil, tomarão por uma narrativa ou mera história. Eu prometi fazer relatos de minha última viagem ao Velho Mundo e oferecer algumas razões pelas quais acredito que “A Grande Bobagem” é muito mais boba do que eu supunha, que a Europa não está inevitavelmente secularizada. Mas direi também que é boba a mesma história invertida, isto é, “A Grande Bobagem” contada de trás para frente, de que a crença num Deus miraculoso e redentor, com as devidas correções antropologicamente corretas, aguarda seu último papel histórico, na verdade pós-histórico, junto às sociedades periféricas não inteiramente secularizadas e que não conseguiram se industrializar o suficiente para afastar o fantasma da pobreza e de Deus. Pois bem, a minha humilde história, que vou contrapor a esta grande história boba, narro agora.

Faz pouco, desembarquei em Lisboa, Portugal, para um congresso de filósofos. Aquele era apenas o início de meu caminho até Santiago de Compostela, na Espanha galega, vale dizer. Lisboa era apenas a minha Antioquia da Síria. A primeira das cidades que visitaria falando de S.Paulo, apóstolo, e os filósofos que dele se ocuparam. Ficaria a maior parte do tempo no Porto, passaria pela Serra do Marão, na bela Amarante de S.Gonçalo, até regressar, passando pelo Rio de Janeiro, essa cidade natal que amo menos do que devia, à minha agora simpática Aracaju. Dirão que tal itinerário religioso é suspeito, um caso de exceção à regra geral do Deus morto e sepultado. Poderão até explicar tudo a partir da crise econômica ibérica. Mas o fato é que a conferência de abertura do congresso de filósofos foi proferida por um francês. Isto é emblemático, porque se há um lugar onde Deus morreu, ou poderia ter morrido, é na França, na Paris de Maximilien. É verdade que, para alguns historiadores da religião e da filosofia, como o ilustre Heinrich Heine, foi o filósofo alemão Immanuel Kant quem verdadeiramente O matou. Eis um enigma. Kant, que nunca saiu de sua pequena Königsberg, matou Deus em Paris, usando Robespierre como testa de ferro. É assim que os filósofos enxergam o mundo.

Mas então o filósofo que encontrei em Lisboa falando em francês era francês de Épenoy, e sua conferência tinha por título “Verdade, veracidade e crença”. Julguei que seria mais uma dessas preleções sobre conceitos abstratos, com forte inclinação analítica, quanto aos fundamentos da ciência. Sim, porque “crença”, caso não se esteja acostumado ao vocabulário filosófico especializado, há muito foi incorporado pela filosofia como uma noção ajustada à discussão sobre o conhecimento, e não sobre religião, fé ou qualquer coisa que poderia parecer à primeira vista. Mas, para minha surpresa, neste caso, era.

O filósofo francês famoso, chamado Jacques Bouveresse, começava por citar outro grande filósofo famoso, só que britânico, Bertrand Russell, esclarecendo que um dos argumentos essenciais que este utilizava contra a religião, e particularmente contra o cristianismo, era que as crenças religiosas são normalmente aceitadas por razões que não têm nada a ver com o conhecimento de que elas são verdadeiras ou falsas. Idealmente, deveríamos sempre basear nossas crenças em razões que dizem respeito à verdade da proposição que as expressa, e não em razões de outra natureza. O que seriam razões de outra natureza? Poderiam ser razões de ordem prática, terapêutica, etc. E, para Russell, é neste tipo de razão que estão baseadas as crenças religiosas. Isto é, porque elas seriam necessárias à preservação do instinto solidário, ao conforto diante de doenças e catástrofes, etc. Esta seria a diferença entre uma crença científica e outro tipo qualquer de crença. “Idealmente” significa também que a crença científica contém um “esforço” para seguir esse princípio, de que suas razões tenham a ver com a verdade da proposição, ou pelo menos com a probabilidade de ela ser verdadeira.

Naquela manhã, o francês não derrotou o britânico, mas foi muito impiedoso com ele. Dizia que, para ser honesto, é estranho pensar nos inúmeros indícios que temos para acreditar em Deus e que, embora não nos faltem razões para acreditar n’Ele, e dos mais variados tipos, não são lá grande coisa quando confrontadas, todas essas razões, com uma só questão realmente importante, a de a crença ser verdadeira ou não. Este é um pressuposto bastante radical do britânico, presente em sua radical recusa do pragmatismo, aquela corrente filosófica que, grosso modo, toma também em consideração se uma crença é boa de se crer, e não unicamente verdadeira. O francês afirmou, com bastante firmeza, que numa época, diferentemente da de Russell, em que a ciência já não tem tanto prestígio, tal princípio permite à religião ganhar novamente respeitabilidade.

Eu poderia aqui desenvolver críticas possíveis ao que gostaria de chamar de “positivismo” de Russell e encorajar uma perspectiva mais pragmática sobre a verdade. Pois certamente eu não me caso com uma mulher porque creio que é verdade que ela é a minha esposa, mas sim porque creio que ela pode ser uma boa esposa. Recentemente, um grande amigo, mas cujas crenças religiosas mais profundas eu não ouso perscrutar, ganhou um prêmio com uma tese de doutorado em filosofia discutindo muitos argumentos simpáticos à ideia de economia teórica e outras importâncias pragmáticas numa explicação científica. Mas eu não vou fazer isso. E também não vou dizer que se tornou démodé em filosofia tal positivismo ingênuo. Não, eu não vou apelar para um argumento histórico, para a moda intelectual, nem para o estilo de vida de certo conceito de verdade. Minha intenção inicial era muito menos pretensiosa. Basta, para mim, mostrar que Deus não morreu na Europa, e que argumentos religiosos são levados a sério por lá.

Quero dizer que, se eu fosse Paulo e tivesse chegando a Atenas, eu não teria encontrado estoicos e epicuristas debochados, mas estoicos e epicuristas sérios, como de fato creio que eram os estoicos e epicuristas de Atos 17:18. Isso não significa que seriam mal-humorados, mas que gostariam de rir da coisa certa. Frequentemente, com raras exceções, como este amigo suspeito por ser um amigo, não creio muito na maioria dos filósofos brasileiros da ciência. Quando cheguei a Lisboa, não encontrei um filósofo da ciência aferrado a seu pressuposto dogmático como se fosse a infalibilidade do Papa, mas um filósofo interessado em levar a sério quais argumentos nós temos para crer na infalibilidade do Papa ou, pelo menos, na existência de Deus. Se ele não estava colocando em questão seu próprio pressuposto, então estava discutindo argumentos religiosos no seu mesmo plano, o plano da verdade.

Talvez o filósofo brasileiro da ciência, com raras exceções, mereça o homem religioso brasileiro. Poucos deles têm alguma disposição para escutar um ao outro. Por isso, nossa filosofia da ciência pode ser tão rasa quanto nossa apologética cristã. Com raras exceções. O fato é que aquele filósofo francês, contrapondo e ao mesmo tempo levando a sério o pressuposto de um filósofo britânico, levou a sério razões para a crença religiosa. Fez isso a partir de uma ideia muito difícil, que eu só comentarei daqui a um mês, noutro texto. É uma ideia boa demais para não merecer um texto só seu. Tivemos, eu e aquele filósofo gentil, uma conversa pessoal muito franca sobre esta ideia, mas guardarei algum suspense. Quando dou de vistas para trás, penso que meu humilde relato de viagem pode se estender mais do que eu supunha. Como era mais do que eu supunha a bobagem da “Grande bobagem”.

Mas talvez o mais importante seja insistir em que a refutação da Grande Bobagem só faz sentido junto com a refutação da sua versão invertida. Se é falso que a Europa secularizou-se por completo, então também é falso que há uma “contramão” da história, protagonizada por energias religiosas da América Latina, por exemplo. Este é mais um sinal, penso eu, de um certo "complexo de vira-lata" que atribuem constantemente aos brasileiros. E por que não valeria para os filósofos brasileiros? Mas, na verdade, discordo da expressão porque gosto muito dos vira-latas. O fato é que estamos todos no mesmo contexto global, na mesma condição humana, disputando os mesmos argumentos. Mas as poucas vozes religiosas sérias por aqui, talvez por culpa daquilo que uma vez eu chamei de grande mídia anencéfala, e da pequena mídia bicéfala, continuam por ser ouvidas. O filósofo ou homem de ciência, por sua vez, com sua falsa imagem do que seja a tarefa da filosofia ou da ciência, o tal complexo canino, continua sem verdadeira disposição para escutar. Sem nem mesmo observar os argumentos, mas somente a disposição para escutar e levá-los a sério, contrariando todas as expectativas, eu me nego a acreditar que somos mais religiosos que os povos do velho continente. Quero acreditar que, no fundo, também não o somos menos. Nenhum povo é.



domingo, 28 de setembro de 2014

A Grande Bobagem

Vou contar-lhes uma história, de que este texto é apenas a introdução. Há pouco mais de um século, difundiu-se mais facilmente do que merecia a ideia de que a Europa tinha se secularizado. Junto com ela, “nasceram” já secularizados Canadá e Oceania. É a velha história, tão nova e já velha, de que Deus tinha morrido, mas cujo fantasma ainda perambulava nos rincões pobres da América Latina e parte dos EUA, que possuem, devido ao excesso de riqueza, mais rincões pobres do que a gente imagina. De outro lado, como se nada tivesse a ver com nada disso, a Grande Ásia. Isto, toda essa história, é o que eu chamo de “A Grande Bobagem”, grande também no sentido de que é uma bobagem plausível, mas afinal uma bobagem.

Essa história divide a história em duas, não no plano vertical, que o Cristo dividiu, mas no plano horizontal, geográfico. A história das duas partes do planeta: a parte que tem história, e a que não tem. A primeira parte teria então se secularizado. A segunda era uma enorme roda girando eternamente em torno de si mesma, na suástica budista, no cofio da barba de Confúcio, nas peregrinações do profeta Maomé. Junta-se a esta história um tanto carregada de misticismo filosófico uma hipótese sociológica medíocre, a de que a religião é fruto da pobreza, e pronto, tudo fica facilmente explicável, muito mais facilmente do que seria aceitável.

Uma versão invertida dessa história diz que não foi meramente o fantasma de Deus que migrou para as bandas que não embarcaram sorridentes na história, mas que para ali, junto com Deus, migraram todas as energias adormecidas de uma civilização que tinha tomado o bonde da história morro acima, mas que, desgovernado, agora se dirige morro abaixo vertiginosamente. Quando este bonde parar, dizem, as energias do novo mundo despertarão, pois dali sairia novamente da tumba o Deus que outra vez já saiu da tumba. Esta, contudo, é uma bobagem não menos pequena. Na verdade são partes da mesma grande bobagem.

Sendo versões invertidas da mesma história, uma contada de frente para trás e outra de trás para frente, é normal que alguns acontecimentos se encaixem melhor na primeira versão e outros, na segunda. Os romances policiais, por exemplo, em que são perseguidos e descobertos os indícios de um crime já cometido, mas do qual nada se sabe, bem poderiam fazer mais sentido lidos ao contrário. Assim leríamos a história de um crime que deixou vestígios e que, afinal, põe um monte de gente ensandecida por decifrá-lo, e o leitor, que já sabe o final, ou melhor, o começo, ficaria rindo eternamente dos personagens, ou esperando-os confessar-se, como o inspetor Porfiri Pietróvitch faz com o pobre Ródia.

Por isto, não é completamente destituída de verdade a história de um Deus que sabe sair da tumba sair novamente da tumba. Não é imediatamente errado pensar que a secularização cederá lugar, ou já cedeu, a energias civilizatórias armazenadas na periferia da história. Mas esta é uma história invertida, que depende da ideia de que aquela outra história, a da secularização, está redondamente enganada, e este “redondamente” não é por acaso. A grande bobagem é redonda como um sistema filosófico. Dizer que o Brasil é o país do futuro é dizer também que o mundo que um dia prescindiu do Brasil não tem mais futuro, e que nem o Brasil o tem. Obviamente, parte dessa história é verdadeira, parte é falsa, e nenhuma está inteiramente correta.

O Brasil não é o país do futuro, inclusive de Deus, e eu não deposito nele, no Brasil, entenda-se, todas as minhas esperanças civilizatórias. A Europa também não matou Deus e chegou ao termo de sua história. Mas vamos resistir a este impulso óbvio e caricato das inversões. Isto não significa que não haja esperanças civilizatórias que incluam o Brasil e Deus. Mas também não significa que essas esperanças civilizatórias incluam necessariamente o Deus do Brasil. A expressão “Deus brasileiro”, se você pensar bem, contém o cerne da inversão dessa teoria fajuta da história linear progressiva civilizatória etc. A ideia de um país do futuro, guardador do sagrado, é na verdade uma ofensa. Ela parte do pressuposto de que o Brasil e Deus representam tudo que a história negou, e que um dia reclamarão seus direitos e salvarão a humanidade. Mas não é bem assim.

Se a história foi negada, o Brasil e Deus não passam de restos mortais de uma civilização à deriva. Não haverá mais direitos que reclamar nem nenhuma salvação para a humanidade, que não estará mais nem aí para salvação nenhuma. Portanto, a nação que tem o privilégio histórico de ser a nação fundamental da era pós-histórica é uma nação que não tem privilégio algum, e esta história é uma farsa. Nenhuma das suas versões fala a verdade. E, no entanto, ainda há história na Europa, ainda há Deus, como às vezes também há história no Brasil, e às vezes também, apesar de tudo, há Deus.

Seja em qualquer parte do mundo, é o mesmo Deus, e a mesma história, difícil de contar numa história só, ou teoria. Só não embarque nesta história invertida de que a fé sincrética da, como dizia um amigo meu, “primeira igreja da mesquita judaica católica evangélica xamanística do branco velho sanyasi e que toma um chazinho” vai salvar o mundo. Isto é tão tosco como o “projeto otimista progressista científico tecnológico inovador cibernético eurocêntrico cristão mas secular porque matou Deus”. Recentemente, vim da tão religiosa Ibéria, da tão secular Europa, e minha convicção de que esta tese é inconsistente tornou-se ainda mais forte. A história é bem outra. Pretendo contá-la em textos seguintes.

sábado, 30 de agosto de 2014

Esquerda, direita e cristianismo


Quando a realidade encontra-se quase inteiramente desprovida de espírito, os maniqueísmos dominam as mentes. Acontece algo muito estranho com os homens, uma coisa que, para tentar explicar, terei de lançar mão de algumas expressões aleatórias absurdas, de aparência filosófica, que minha imaginação começa a fabular: poderia ser uma espécie de “vontade de dilema”, ou “complexo de asno de Buridan”, ou uma doença qualquer que dispõe a pessoa constantemente de cabeça para baixo, como um pêndulo.

Quando alguém está de cabeça para baixo, pesa e oscila, mas não pode andar, não sai do lugar. Trata-se de uma tendência iniludível à grande cabeça, seja a do pêndulo ou a do asno. Mas pelo menos o asno tem a vantagem de se deixar guiar. E numa passagem filosoficamente penetrante e poeticamente surpreendente, o asno deixou-se montar pelo mais sábio dos homens, no meio da multidão. O homem que montou o asno era Deus.

Na arte heráldica, muitos impérios, países, províncias e cidades se decidiram sabiamente pela águia bicéfala. Vale muito a pena verificar a beleza e a diversidade com que esta imagem aparece e reaparece na história dos povos, do Império Russo ao pequeno município de Toledo, a “glória da Espanha”. Recuso aqui propositalmente a dupla face pagã de Jano, pois procuro antes uma imagem cristã. A imagem da águia é, sem dúvida, como a de Jano, símbolo de decisão, de exercício corajoso da capacidade de escolher. Não raro a águia de duas cabeças traz uma espada, ela corta, divide. Mas traz também uma coroa. É símbolo, além da divisão, de uma unidade e de uma integração conquistadas. Mas o homem, às vezes, diante da possibilidade das duas cabeças, sucumbe ao peso de uma única e anencéfala figura.

Refiro-me à anencefalia dominante no debate político. Não quero simplesmente denegrir todo debate político, mas aquele a que estamos mais expostos, os feitos pela grande mídia anencéfala e pela pequena mídia social bicéfala. Ter apenas uma cabeça é o lado bom da grande mídia, só que, como um pêndulo, ela está de cabeça para baixo e oscila. Ter duas cabeças é a lado ruim do debate político, porque, ao contrário da águia, ele não é exemplo de uma visão alargada, de integração conquistada a muito custo, mas sim de um maniqueísmo cego. Um águia poderia ter quantas cabeças quisesse, mas se não tivesse nenhum olho, seria como não ter cabeça nenhuma. A maior qualidade da águia certamente não é refletir, mas enxergar.

Agora o leitor esqueça esse introito retórico e atente para o que vou dizer a seguir: sou cristão. Já disse isso várias vezes nestes textos rabiscados neste canto de parede virtual. Sou cristão. E sabe qual o significado disso para minha posição político-eleitoral? Absolutamente nenhum. Como cristão, tenho apenas, o que não é pouco, uma grande responsabilidade para com meus concidadãos, com o passado e com o futuro de meus concidadãos mortos e ainda não nascidos, e uma obrigação severa de não me deixar enganar. 

Um líder religioso nunca é um bom político. Um bom político saberá ser religioso. Cristo nunca falou da relação entre um político e um profeta. Aliás, ele rompeu esta relação que o judaísmo havia criado. A única vez em que comentou sobre política e profecia foi para falar de falsos profetas, que a rigor nem chegam a ser profetas. Disse, numa imagem, que conheceríamos as árvores pelo seu fruto. Daí a minha única e exclusiva obrigação como cristão diante da política partidária: tenho de avaliar bem as árvores pelos seus frutos, e não pelas cores, pela grandeza, por ser velha ou nova. O que importa é se o fruto é bom de comer. Pode até ser uma árvore magra e feia.

Esta é uma recomendação intencionalmente vaga, a fim de deitar por terra todos os símbolos e sinais que os judeus valorizavam na distinção de homens para fundar neles relações de poder. Esses símbolos e sinais não tinham nenhum valor para Jesus. Não tinham nenhum valor para Paulo. “Havendo profecias, desaparecerão.” (1Co 13.8). O que ocorre atualmente no Brasil é que vemos uma verdadeira vetero-testamentalização da Boa Nova. Suntuosos templos, indumentárias, só falta os ditos cristãos pedirem a seus fiéis que se circuncidem para regredir inteiramente aos rudimentos diabólicos do mundo da Lei.

Um desses rudimentos é o poder político, a autoridade religiosa imiscuída com a política, e que Jesus aboliu. A única coisa que ele disse, diante de Pilatos, não era nada a respeito de ninguém, nada a respeito do próprio Pilatos, mas algo sobre a autoridade em si. Ele disse que ela era “dada”. Noutras palavras, é algo que não se alcança com as próprias forças.

Quando me perguntam se sou de esquerda ou de direita, digo que sou cristão. Não por ser uma resposta, mas sim uma recusa da pergunta. Porque essa pergunta soa para mim como se alguém me perguntasse se sou judeu ou grego, se sou vegetariano ou carnívoro, ou se prefiro a segunda ou a terça-feira. Ora, nada disso importa. Tendo somente vegetais, como somente vegetais. Sei que, no quadro histórico dos últimos anos, a esquerda foi mais competente na América Latina em vários aspectos, que ela é menos vendida externamente, e mais internamente. Por isso ouço dos meus colegas que tenho um dilema: tenho posições de esquerda e sou cristão. Mas em vários outros aspectos certamente não sou de esquerda, e não seria verdade dizer que sou de direita. Simplesmente a minha identidade de cristão é muito mais rica, mais complexa, mais parecida com a vida, e eu diria, mais inteligente, o que torna a dicotomia completamente inútil. Consequentemente, os candidatos, todos, completamente inadequados.

Obviamente, isto não me tira a responsabilidade diante da escolha, apenas não devo me iludir quanto ao alcance da política. Recentemente um respeitado jornal do país publicou uma lista de valores ideológicos de acordo com os quais alguém se situaria à esquerda ou à direita do espectro político. Perdoem o trocadilho fantasmagórico com o espectro. Por exemplo, quanto à posse de armas, eu seria de esquerda, pois concordo com o desarmamento da população civil. O mesmo quanto a questões migratórias, pena de morte, etc. Quanto a questões sexuais, simplesmente não me enquadro em nenhuma das posturas no que diz respeito aos direitos civis, mas se alguém me perguntasse mais claramente, eu diria mais firmemente que dizer que o homossexualismo é algo a ser aceito não é a mesma coisa que dizer que é algo a ser encorajado.

Quanto às raízes da pobreza e da criminalidade, eu seria igualmente de esquerda e de direita. Pois considero ambas produto da falta de oportunidade e também da maldade intrínseca das pessoas. Mas a diferença entre um homem de direita e um cristão é que o primeiro acha que somente os outros são pobres ou criminosos, enquanto o cristão vê a si mesmo como um criminoso e, quando não é pobre, como responsável pela pobreza em variados sentidos. Quanto às drogas, não recomendo seu uso assim como não recomendo sua proibição. Quanto à religião, não acho que “acreditar em Deus” torna as pessoas melhores, apenas acho que Deus é a única coisa que pode tornar as pessoas melhores.

Sendo assim, só posso chegar à conclusão de que aquela enquete era boba demais. Que as perguntas eram muito mal formuladas, eram na verdade pegadinhas, como as que os escribas e fariseus gostavam de fazer para pegar o mestre. Se ele respondesse de um jeito, tinham uma acusação na manga, se ele respondesse o contrário, tinham outra. "Devemos pagar impostos?" E Jesus respondeu com uma pergunta simples: de quem é a imagem na moeda? 

Eu pergunto: de quem é a imagem na moeda? De quem é a imagem na moeda? Ora, é sempre deles, os que querem o poder. Ela os reflete. Porque o verdadeiro poder não é de quem quer. Mas se o fim dessas dicotomias é o discurso da pretensa "nova política", eu gostaria de dizer que isto simplesmente não é política. Sem dúvida é uma Nova, mas que já tem mais de dois mil anos.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Desfazendo mal-entendidos sobre escritos sagrados



Este mês, venho devidamente sendo tragado pela atividade burocrática universitária. Por esta razão, e por outra que explicarei logo em seguida, aproveito a oportunidade para publicar agora reflexões que, de outra forma, seriam tragadas – mais do que eu pela vida universitária burocrática – pelos escombros milenares dos servidores de e-mails. Tomarei a liberdade de publicar aqui parcialmente, na forma de um ensaio corrido, um par de mensagens trocadas com uma jornalista que me procurou, muito gentilmente, explicando que estava escrevendo uma matéria sobre a “utopia do conhecimento”, e queria saber se os escritos sagrados poderiam ser compreendidos nesta categoria. Em resumo, a “Bíblia” ou o “Alcorão”, por exemplo, poderiam ser caracterizados como projetos de intenção totalizadora? Poderiam ser, num caso como no outro, o “livro do conhecimento”? A resposta que dei a esta gentil jornalista é o que transcrevo a seguir, pois, apesar de dizer que a teria ajudado muito, sua matéria tinha ficado enorme e, exatamente em virtude de meus esclarecimentos, a questão dos livros sagrados tinha caído fora de sua consideração. Eis porque talvez seja importante reproduzi-la aqui. Eis o que respondi a ela:

Você deve conhecer o conto do Borges “A biblioteca de Babel”, é hilário, e mexe exatamente com esta grande contradição que é o desejo de autotransparência completa do conhecimento humano. Esse desejo, no conto, é contraditório ao ponto do ridículo, porque uma biblioteca que contivesse todos os livros possíveis conteria a teoria verdadeira do mundo e também a refutação desta mesma teoria. Sem contar com o problema lógico de saber se ela poderia conter o “catálogo dos catálogos”, que certamente não poderia conter a si mesmo. Tais paradoxos servem para ridicularizar esse desejo de completude na organização do saber, que é um desejo vão, isto é, uma “vaidade”, naturalmente, assim com a torre, destinada ao fracasso. Mas esta é uma crítica da ambição de autotransparência completa do saber humano. Não necessariamente toda forma de organização, catalogação, etc., é ambiciosa a este ponto.
Aproveitando, digo que nem toda literatura sagrada contém esta pretensão. Pelo contrário. A Torá hebraica está repleta de ressalvas contra este ideal de autoperfeição ou autoconhecimento completo, entre as quais o próprio pecado original. A Torre de Babel é claramente uma imagem crítica deste ideal. O que temos é a tentativa de organização de um povo, em primeiro lugar através da codificação, o mais completa possível, de suas leis, a lei de Moisés. E depois que os judeus retornaram do exílio na Babilônia, fizeram um esforço de recontar a história de seus próprios antepassados, o que deu origem ao livro das Crônicas. Não identifico tais iniciativas com um ideal de organização ambicioso. Tem a ver, antes, com a memória, com não deixar as coisas caírem no esquecimento, e não com organização completa e sistemática de tudo. O Antigo Testamento contém também livros de sabedoria, provérbios, canções (os Salmos), poesia, e o enigmático e teatral livro de Jó, talvez o mais antigo da Bíblia. Ou seja, não há um princípio de organização, mas apenas o desejo de não se deixarem perder textos considerados exemplares para um povo e sua formação.

Já a Bíblia Sagrada usada pelos cristãos hoje – vale ressaltar alguma diferença entre muitas versões e traduções dela, inclusive a diferença entre o cânon considerado sagrado por católicos e protestantes – não é uma “organização”, mas simplesmente, também, um conjunto de livros oriundos de uma mesma tradição, a judaico-cristã. A coisa nem é tão organizada assim. A Bíblia contém vários livros escritos em momentos distintos, por muitos autores, e demanda um grande esforço de conciliação de partes aparentemente contraditórias. O Novo Testamento contém quatro evangelhos escritos por diferentes pessoas para públicos diferentes. Reúne, em sua maior parte, as cartas de Paulo de Tarso às igrejas que ele fundou pelo mundo greco-romano. Os padres da Igreja, com o auxílio da tradição, foram identificando os documentos que mereciam constar neste grande livro que é a Bíblia hoje, mas ela nunca foi um projeto de completude e organização sistemática. Na verdade, para isso existe a teologia e a exegese, que, movidas por um espírito científico, por assim dizer, pretendem organizar melhor as coisas. Há uma parte da teologia que se chama "teologia sistemática". Mas, repito, esse não é o tipo de projeto de livros sagrados. As literaturas sagradas das grandes religiões fornecem uma totalidade que se forma na própria visão de mundo, mas não como ideal de organização ou utopia do saber.
Talvez essa ideia possa ser aplicada a uma religião em particular, o Confucionismo. Confúcio insistiu na catalogação de formalidades, dos costumes morais, dos hábitos, dos cuidados com a saúde, o corpo, as regras de culto, etc. Mas isso é, muito semelhantemente ao projeto de Moisés, uma tentativa de organizar um povo, de lhe dar leis, e não de escrever o "Livro dos livros".
Em suma, todas essas são tentativas de “dar ordem ao caos”. Porque o ser humano é essa tentativa. Mas se entendo bem o núcleo da sua pergunta, é quando esse desejo se torna obsessivo, de reunir “num único livro” a totalidade do conhecimento essencial do mundo. Se for isso, digo que este, ao contrário de ser um projeto dos livros sagrados, é um projeto do homem moderno.

O homem moderno sim é que tem ambição de sistema, de catalogação, de organização da informação para o conhecimento completo da natureza, da vida e da história. O enciclopedismo é uma iniciativa do século XVIII, no iluminismo. Alguns sistemas filosóficos, como o de Hegel, foram também ambiciosos a este ponto de ser uma teoria de tudo. E as tecnologias da informação tentam fazer algo parecido. Mas o resultado é, novamente, o oposto do que se pretendia. Com tantos bancos de dados, temos hoje muito mais caos de informação do que antes. A este respeito, os livros sagrados, pelo menos os da tradição judaico-cristã, estão o tempo todo chamando atenção para os perigos do conhecimento e autoconhecimento completo.

O cristianismo é um sistema na medida em que é uma visão de mundo. Neste sentido, ele diz o essencial, mas o essencial, neste caso, pode ser pouca coisa, apenas o essencial, e não “tudo”. Por isso, o estilo do cristianismo é de certa forma oposto ao do confucionismo – talvez também ao do judaísmo – com seu sistema de regras exteriores. O essencial do cristianismo está reunido numa oração, o “Credo”, estabelecido pelo Concilio de Niceia no ano 325, ou talvez na regra de ouro: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Eu posso dizer que o mesmo princípio vale para as outras sete grandes religiões mundiais.

Enfim, a noção de totalidade para um escrito sagrado é diferente da mesma noção de totalidade como empreendimento humano de organização ou utopia do conhecimento. Este último é que é impossível e ridículo, porque é analítico, catalográfico, científico, como queira. O primeiro, não. É a totalidade de um “modo de vida”. Não sei se contribuí alguma coisa para o seu trabalho. Espero que sim. Grande abraço.



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