quarta-feira, 29 de março de 2017

It’s all about character (notas sobre literatura, ética e política)


Naquilo que os historiadores chamam de “modernidade”, foram cometidas várias loucuras, e uma delas foi a separação entre política e moral. Antes de passar a este ponto, preciso fazer o que faço de costume nestes longos textos que apenas alguns amigos leem, isto é, cansativos parágrafos de preparação e ambientação, até entrar no tema. Primeiro me desculpar por sugerir que leriam um texto em inglês. Na verdade, o título é apenas uma espécie de homenagem à língua inglesa e a um de seus mais eminentes mestres, no sentido de mestre mesmo, de alguém que domina (masters) a língua, de quem sempre quis ler a obra, agraciada com o Nobel de Literatura em 1953, e cujos fragmentos compilados por seu neto tive o prazer de encontrar na edição Never Give In! Winston Churchill’s Speeches. Segundo, porque vai parecer que estarei tratando de política, o que é muito avesso ao meu caráter. Na verdade, este é um texto sobre literatura. Pois, ao travar contato com a obra de Churchill, me dei conta de que seu maior feito político foi literário, e de que esse literário é sobretudo ético ou estético (no sentido de ético). E de que, se existe uma tal coisa como a separação entre política e moral, então o seu maior feito político foi anti-político.

Churchill fazia sua maior política quando se sentava numa manhã ensolarada, por quatro horas calmas e de ininterrupta segurança, apenas com papel branco e caneta, o que ele chamou de “felicidade verdadeira”. Aliás, à caneta é conferida, no título deste discurso pronunciado pelo ex-soldado e jovem estadista ao Clube dos Autores de Londres, em 17 de fevereiro de 1908, a patente de “libertadora do homem e das nações”. Eu não resisto em citar aqui o modo como ele opõe a sua rotina como membro do parlamento a essas horas de felicidade e liberdade: “Que importa o que esteja acontecendo lá fora? A Câmara dos Comuns pode fazer o que quiser, assim como a Câmara dos Lordes. Os pagãos podem ranger furiosamente em cada parte do globo. O mercado americano pode ter atingido o fundo do poço. Os títulos do governo podem despencar e sufragistas podem surgir. Não interessa. Por quatro horas, de qualquer modo, vamos nos afastar deste mundo comum, governado de forma doentia e desordenado, e com a chave da fantasia abrir aquele armário onde todas as coisas do infinito foram guardadas e deixadas de lado.”

Apenas começamos a ler os primeiros discursos do jovem Churchill e ficamos impressionados como a política é assunto literário, e nessa medida também estético, e de grande responsabilidade ética, principalmente. Um domínio onde não pode reinar outra coisa que não o bom senso. Em suma, a verdadeira política não é uma questão de política.

Na verdade, é uma questão de caráter. Caráter que é inteligência, e não apenas um discurso moralista vazio e, muitas vezes, hipócrita. Sobretudo aquela forma de inteligência que estou chamando de bom senso, e que ninguém jamais entenderia se já não tivesse um. Essa forma de inteligência, na minha opinião, está na origem de todas as demais, sem que seja superior a todas as demais. Desde que os filósofos abdicaram da tentativa de uma explicação global da existência, diagnosticaram não somente a autonomia das esferas da cultura, mas começaram a defender até mesmo a ideia de que há muitos tipos de inteligência. Recentemente, isto se tornou coisa inquestionável em psicologia. Eu não me incomodo com esta ideia, e acho até que temos evidências disso. O problema é quando uma dessas inteligências, ou até mesmo uma certa separação muito rígida delas, fere aquela forma não exatamente superior, mas muito básica, elementar, de inteligência. Estou inclinado a pensar que qualquer manobra filosófica assim é um tipo de “loucura”, como o idealismo, que separa a mente das coisas que ela conhece, por exemplo. Uma dessas formas de loucura é a ideia de que uma inteligência política não está realmente vinculada a preocupações morais. Pior, há mesmo quem defina a inteligência política como uma forma moderna de bom senso, que, pasmem, nada tem a ver com moral. Ora, qualquer pessoa, não precisa ser muito estudada para isso, sabe que algum tipo de inteligência completamente separada de preocupações morais não pode ser inteligente.

Algumas pessoas pensam que fazer política requer senso prático. É o contrário! Requer liberdade. A liberdade de pensar e refletir, a liberdade de ter um ideal e não abrir mão dele (Never give in!), a liberdade da literatura, a liberdade de manter-se firmemente aferrado ao bom senso real, sensível ao grito das coisas importantes, não ao senso prático político oportunista. Na verdade, trata-se de uma política precisamente anti-oportunismo. Vejamos como Churchill a encarna de modo exemplar.

Em 31 de maio de 1904, sentou-se do outro lado da Câmara dos Comuns, junto aos membros do Partido Liberal, em defesa da liberdade de comércio que o Partido Conservador, antes seu partido, havia abandonado em nome dos cartéis protecionistas. Um mês depois, dirigia-se ao Palácio Alexandra para atacar a plutocracia do protecionismo, num discurso em defesa do que considera um princípio acima do que pensam os partidos, o princípio que diz que os homens, enquanto existirem, vão continuar a comercializar mercadorias neste mundo, e isto não tem nada a ver com capitalismo. Pelo contrário, o Partido Conservador, com suas medidas protecionistas, é que estava pensando capitalisticamente, plutocraticamente, fazendo uma “aposta com a comida do povo”.

No emblemático discurso de 11 de outubro de 1906, pronunciado no Saint Andrew’s Hall, em Glasgow, Churchill emplaca, como membro do Partido Liberal, medidas consideradas radicais ou “socialistas” para a época, como o seguro-desemprego, o salário mínimo e melhores condições de trabalho, especialmente para os trabalhadores das minas. Com ironia fina, conclama os membros do Partido Liberal a não ter “medo de discutir qualquer dessas propostas só porque algumas velhas senhoras aparecem e lhe dizem que são socialistas”.

Esse discurso é emblemático porque é ali que Churchill revela sua “filosofia”, que está além da dicotomia besta liberalismo versus socialismo, ou individualismo versus coletivismo. Sua filosofia é obviamente a do bom senso, a que mais perto está de uma mente sadia e que não sucumbe à loucura de achar que a verdade é obra de teoria, e não de evidências. Para ele, como para muita gente atenta, o homem é um animal ao mesmo tempo competitivo e gregário. Ele junta-se em grupo, se solidariza, mas também compete e destrói. Ele almeja vencer, mas não abre mão de determinadas convicções que para ele são condições da própria competição. O bom senso de Churchill é estarrecedor. Coletivamente temos um Exército, os correios, o sistema de água e as ruas. Mas não fazemos amor coletivamente! Não nos apaixonamos por um grupo, mas por pessoas. Por causa de sua filosofia do sentido comum, Churchill pode defender uma ideia tão óbvia que parecia absurda. Preciso ceder mais uma vez à citação:

“Não quero ver prejudicado o vigor da competição, mas podemos fazer muito para mitigar as consequências do fracasso. Queremos demarcar uma linha abaixo da qual não permitiremos que nenhuma pessoa possa viver e trabalhar, e acima da qual elas podem competir com toda a força de sua humanidade. Nós queremos ver livre a competição para cima; nos recusamos a permitir que haja competição para ver quem vai mais baixo.”

Eu deveria terminar este texto aqui, mas não tenho, como disse o Pe. Vieira, tempo para ser sintético.  Preciso dizer uma obviedade, a saber, que muito do que chamamos liberalismo está longe ser liberalismo. E que muito do que chamamos socialismo é a mais burocrática plutocracia. A política não tem tempo nem condições de refletir como a literatura tem. Preciso acrescentar que, a esta altura, Churchill lança mão de sua experiência como ex-combatente e mostra como nenhuma operação é mais arriscada do que a operação de salvamento de uma retaguarda. Quando o principal corpo do exército alcançou a vitória, mas descobre que deixou atrás de si um enorme contingente de feridos, é hora de mobilizar para lá os mais fortes soldados e os mais confiáveis generais.

Chamemos de elite aquele grupo “vencedor” na competição econômica. Será que ele não percebe que, se não salvar a retaguarda, sua vitória é efêmera? Como trabalharão os famintos? Como defenderão os desempregados da criminalidade? Não estou justificando o crime. Eu confio na boa vontade dos homens, só não suponho que todos os homens sejam bons quando famintos, reduzidos à barbárie e indignos da dignidade. Também neste dilema está pressuposta uma dicotomia que não existe, entre ética e ontologia. O fato de que o “ser” humano, quando não é humano, não tem obrigações éticas, significa apenas que temos a obrigação ética de não permitir que um ser humano não seja humano.

Alguém dirá: “Mas isso é romantismo! Na prática não é assim! A ambição dos ricos é incontrolável!” Mas eu disse que este era um texto de literatura. Não enrijeci minha mente com nenhuma teoria. Penso que ainda consigo me defender do que chamei genericamente de loucura. Aqui eu posso dizer não apenas que a ambição dos ricos é incontrolável, mas também que é burra. Aqui estão as minhas quatro horas da manhã de hoje. A única coisa que me importa é que meu tempo acabou, que o texto ficou longo demais e nem consegui falar da defesa apaixonada do constitucionalismo que Churchill fez quando os Lordes supuseram poder ferir a constituição e convocar eleições gerais só porque rejeitaram o orçamento. Tal como os outros, este discurso pronunciado no Teatro Palácio de Londres, em 04 de setembro 1909, chamado “Uma violenta ruptura com a prática constitucional”, deixo aqui apenas como sugestão para os brasileiros, pelo menos para quem gostaria de refletir que mudar o que é passageiro pode ter consequências permanentes.



sábado, 5 de novembro de 2016

Nem católicos nem evangélicos: afinidades eletivas no mundo político-religioso


Há poucos dias, realizei um pequeno teste proposto pelo site britânico “The Political Compass” (A Bússola Política). Gostei muito, sobretudo depois de saber que minha posição é quase idêntica à de Beethoven e está bem distante da de Wagner. Mas gostei ainda mais porque, segundo os organizadores do site (que apesar de obter um renomado feedback de políticos e intelectuais, permanece anônimo), seu ponto essencial é que “esquerda-direita” está longe de ser uma dicotomia obsoleta, por ser ainda bastante útil em questões econômicas. Contudo, a “bússola” reconhece que a divisão tem se tornado cada vez mais borrada. 

A divisão dos partidos políticos tende a responder questões de identidade (social, espiritual, sexual, etc.), e não apenas questões econômicas. Daí a bússola trabalhar com uma rosa-dos-ventos política, acrescentando à linha horizontal (direita-esquerda) uma linha vertical (autoritarismo-libertarismo). Embora haja algumas perguntas tolas no teste, creio que pode ser um começo para pensar algumas “surpresas” políticas do Brasil recente, por exemplo, por que o PSOL, de Marcelo Freixo, aparentemente de esquerda, não ocupou, como se pensava, o vácuo deixado pelo Partido dos Trabalhadores, mas concentrou-se nas áreas mais abastadas do Rio de Janeiro (Tijuca-Centro-Zona Sul)? Por que, por outro lado, o candidato Marcelo Crivella, de quem é mais relevante dizer que pertence à Igreja Universal do Reino de Deus do que informar o nome do seu partido (criado pela própria igreja), respondeu mais aos anseios daquela parcela da população que tem todos os motivos para discordar de sua agenda econômica? 

A resposta pode ser simples, se não fosse complicada: Freixo não é um candidato de esquerda, mas é um candidato libertário. Ele ganha entre os mais ricos na linha vertical. São os que têm menos senso de comunidade e querem mais liberdade para seus estilos de vida cada vez mais singulares. Ele apoia o feminismo, a legalização do aborto e é contra a homofobia. Mas isso nada tem que ver com assuntos econômicos. Se o assunto fosse apenas economia, Freixo teria dado um capote em Crivella nas zonas Norte e Oeste do Rio, e os libertários do Leblon teriam que votar no bispo. Mas, para desespero do filósofo materialista, um homem desempregado pensa mais em seus valores imateriais. Mesmo que tenhamos em conta a decadência moral da periferia carioca, expressa nos cultos evangélicos animados a funk e na ideia absurda de traficantes evangélicos, a grande maioria das pessoas ainda pensa como uma pessoa comum. Ela tem um senso de ordem, um apego natural à família, uma hipocrisia naturalmente controlada pela própria importância dos valores que defende, e ela tem razão. 

Digo que ela tem razão porque sou cristão, embora minimamente libertário, segundo a bússola. Como não sou rico, e como sou cristão, estou, também segundo a bússola, 3.15 à esquerda, se não me engano, o que para mim representa apenas que o Estado deva corrigir grandes desigualdades, deixar quietas as pequenas desigualdades e garantir que a liberdade econômica siga em frente. Estou longe do socialista. Mas, por outro lado, como sou fruto da liberdade religiosa, e creio que toda genuína mudança vem de dentro, sem imposições, prefiro uma fé cristã nascida em solo libertário, na escala de 1.56. Estou longe do autoritarismo, segundo a bússola, mas não tão longe dele quanto estou do neoliberalismo econômico. 

Isto porque, como cristão e como uma pessoa comum, cultivo um senso de ordem, um apego natural à família, valores que tomo em alta conta e que apontam todo dia, contra mim, um sentimento saudável de culpa. Eu lutaria por esses valores, mas não por mais liberdade para minha empresa, se tivesse uma. Mas lutaria, mais que tudo, se alguém tentasse arrombar minha casa, o que penso ser uma defesa sagrada do direito à propriedade. Como disse, sou cristão. Mas também sou pobre, de certa forma, e, por razões econômicas, não posso votar num Crivella (ainda mais porque a IURD, como empresa ambiciosa que é, já está visando à classe média-alta e deixando os pobres para o R.R. Soares, o pastor-cowboy Valdemiro Santiago e coisas do gênero). Ainda que por razões morais e de liberdade social, a pequena teocracia de Crivella é insuportável demais mesmo para o meu pequeno libertarismo que, aliás, herdei da ala radical da reforma protestante, os anabatistas, pacifistas, democrático-congregacionalistas (a igreja reunida em assembleia manda mais que o pastor) e defensores da inegociável separação entre Igreja e Estado. Só que tive de dar razão a um colega, professor de ciência política, quando afirmou o seguinte: 

“Os intelectuais, a mídia e a população de um modo geral não sabem o que é evangélico, protestante, pentecostal ou reformados. Eles misturam tudo. Para eles todos estes citados acima são “farinha do mesmo saco”. São “gatos do mesmo balaio”. A entrevista deixa isso muito claro. Portanto, não nos iludamos. Edir Macedo, que está por trás de todo esse projeto político, usa-nos a todos, queiramos ou não. Achemos que sim ou que não.” Concordo. Com estas palavras do meu querido colega Josadac Santos concordo. E considero problema pouco não. Se protestantes históricos, pentecostais, reformados, radicais, etc., não se entendem entre si, como rejeitarão em uníssono a IURD e Cia Ltda.? E quem são a Cia Ltda., que também não merecem o título de igrejas cristãs? No fim das contas, tem valido a dicotomia sedimentada “católicos x evangélicos”, e por rejeição “química” a este projeto político-religioso (moralismo, teologia da dominação, teologia da prosperidade) parte do setor evangélico tem buscado novamente aproximação com o catolicismo, ora por afinidade teológica ora pela simples procura simbólica de uma “ortodoxia”.

Não quero apontar apenas as diferenças de pauta entre os variados segmentos da chamada Frente Parlamentar Evangélica no Congresso, que às vezes se digladiam, às vezes se unem, de que fala com propriedade a entrevista a que meu colega se referiu, mas apontar as diferenças entre aqueles que fundamentam sua teologia no ódio, não importa a quem, e aqueles que a fundamentam no serviço. O ex-ministro Mangabeira Unger, hoje cedo, já começava colocando sua entrevista em outra direção, ao dizer que “o desmerecimento preconceituoso dos evangélicos é um dos maiores escândalos da nossa vida nacional”. Atento, ele recorda a cultura empreendedora e criativa da classe média e dos mais pobres que se dizem evangélicos, que vão dar diretamente no incremento da economia, sem dar muita importância para os rótulos apressados de “conservadores” ou “fascistas”. Vêm dessa cultura de iniciativa, aliás, e não das políticas públicas, os exemplos bem-sucedidos de trabalhos sistemáticos de recuperação de dependentes químicos.

Mas a presidenta ilegitimamente impedida errou ao colocar o tom de seu discurso na linha vertical, de liberdades sociais, e não na linha horizontal, de liberdades econômicas, quando disse que o golpe foi “misógino, homofóbico, racista” e que “a primeira vez que uma mulher chegou à presidência, o machismo mostrou suas feitas faces”. Ora, Margareth Thatcher poderia ter dito o mesmo, se tivesse sofrido um golpe e, no entanto, sua agenda econômica estava a infinitos pontos de distância da de Dilma. Os mais pobres, acredito, estão com a esquerda, no quesito economia, e os pobres empreendedores, peixinhos entusiastas do mercado, também precisam da proteção do Estado contra os grandes tubarões, mas jamais aceitarão, pois sempre serão maioria, a pecha de conservadores ou de direita só porque defendem o modo como aprenderam a levar suas vidas, no quesito liberdade social.

Aqueles que pensam que lutar contra a homofobia faz de alguém imediatamente um eleitor de esquerda, ou que pensam que ser religioso e contra a legalização do aborto faz de alguém imediatamente um eleitor de direita, são presas do mesmo preconceito, do escândalo da nossa vida nacional-intelectual, de nossa mídia e de nossos filósofos, sociólogos, politólogos, etc., que não fazem a menor ideia da riqueza teológica e histórica da reforma. Eles sabem possivelmente mais sobre diferentes tipos de budismo do que sobre a diferença entre um católico, um protestante histórico e um neopentecostal. Do contrário, saberiam que os dois primeiros se parecem mais que os dois últimos. Eles não estão preparados para compreender a nova cristandade dos países emergentes, pois reproduzem categorias dos livros de história do ensino médio. Eu diria, acrescentando à fala de Mangabeira, sem qualquer pretensão política, que o preconceito teológico é um dos principais escândalos da vida intelectual brasileira, que deveria sobre isso orientar também a mídia brasileira.


sábado, 30 de julho de 2016

“Em pleno século XXI” e outros chavões



Às vezes me pergunto se vivemos uma espécie terrível de era pós-comunicativa ou pós-argumentativa. Mas como não dou muita bola para nenhuma espécie de “pós”, porque logo este também terá o seu “pós”, não ousaria ser tão estúpido para colocar nessas bases uma reflexão sobre as atuais condições do debate político-religioso. Mas posso, sem idolatrar prefixos, constatar facilmente o que muitos já constatam: que as formas contemporâneas do diálogo não têm quase nada do que se pareça com um diálogo. Tanto que muitos se metem ou se intrometem, numa conversa, com o intuito um pouco estranho de dizer algo definitivo e mostrar que a conversa não serve para nada. Que muitas conversas não servem para nada, isso é um truísmo. Mas que alguém entre numa conversa para dizer que ela não serve para nada, isso é louco ou não serve para nada. Mas em nossa época tem sido tão recorrente, que poderia parecer um truísmo. E eu me nego a acreditar que haja truísmos loucos. 

Uma verdade trivial, que nem mereça ser dita, pode ser tão óbvia que não mereça ser dita. Mas os diálogos atuais são aqueles, em sua maioria tão loucos, que alguém tem de vir e dizer a maior das loucuras: a verdade trivial de que aquele diálogo não serve para nada. Mas não é relevante dizer um truísmo. A única coisa relevante que se pode dizer sobre um truísmo é que ele é um truísmo. Assim, por exemplo, é uma verdade trivial que a distinção entre direita e esquerda não serve para nada. Neste caso, a única coisa relevante que se pode dizer sobre isso é que dizer que a distinção entre direita e esquerda não serve para nada é um truísmo. 

Assim, por exemplo, o fato de que alguém que entre num diálogo para insultar não está dialogando é uma verdade trivial. A única coisa relevante que se pode dizer sobre isso é que dizer que alguém que entra num diálogo para insultar não está dialogando é uma verdade trivial. Mas isto é o mais louco em nossa época: a necessidade de dizer truísmos não para dizer que são truísmos, mas como se fossem coisas relevantes. Assim, alguém precisa lembrar, num diálogo, que o insulto não é diálogo. E às vezes é preciso dizer que a distinção conceitual entre direita e esquerda, ou entre progressistas e conservadores, não serve para nada. Alguém precisa dizer que estas etiquetas são vazias.

Eu tenho dito que a necessidade de um diálogo inter-religioso e dos cidadãos descrentes com os cidadãos que professam alguma fé é fruto de uma sociedade que se tornou irremediavelmente complexa. O diálogo tornou-se necessário, isto é um fato. Agora devemos buscar as bases na qual ele é possível, e eu creio que seja, dentro de certos limites bastante amplos. Pois se acreditamos que uma coisa necessária não é possível, é como se uma pessoa com fome fosse procurar comida no deserto. Isto só é compreensível se esta pessoa, praticamente um santo, quiser meditar profundamente sobre sua fome. Ou, de volta da metáfora para o assunto, se a pessoa quiser ficar um tempo calado, até que tenha alguma coisa para falar. 

Agora, por exemplo, não vai adiantar nada ficar repetindo chavões do tipo “em pleno século vinte e um”... Eu, sinceramente, já não levo mais a sério nenhuma fala que contenha essa expressão. Ela não diz nada. A pessoa que a emite não tem nada para dizer. Assim como quem usa chavões do tipo “conservador”, “progressista”, etc. Eu preferiria que, em vez de conservador, alguém chamasse alguém de “conversador”. Diria muito mais a seu respeito. Agora o “em pleno século XXI” é realmente muito engraçado. Acho que o sentimento que os contemporâneos têm a respeito de seu tempo é um tanto quanto ridículo. Eles pensam que são os únicos na história que ousaram fazer coisas que não só já foram feitas como também já foram superadas, há muito tempo.

Por exemplo, basta dar uma olhada no décimo quarto Salmo, atribuído a Davi, que viveu provavelmente um milênio a.C., para ver que não acreditar em Deus é uma coisa muitíssimo antiga. Ali, o músico canta, já no primeiro verso: “Diz o insensato no seu coração: ‘Deus não existe!’”. Agora, imaginem, em pleno século X a.C. (dez séculos antes de Cristo), alguém já não acreditava em Deus. Mas as coisas não são tão simples assim. Aqui, o ateísmo não é apresentado unicamente como um gesto “teórico”, como uma mera posição metafísica. Pelo contrário, é apresentado como uma insensatez, uma espécie de racionalização ou ideologia, no melhor sentido dessas palavras.

Em algumas traduções diz-se “o tolo”. Isto porque, para o compositor – e uma boa olhada na sequência do canto, uma exegese nem tão profunda, já confirma isto –, ninguém teria o interesse meramente teórico em não crer em Deus. Na verdade, o insensato “diz no seu coração”, e isto significa: ele quer, gostaria, sente prazer na ideia de que não exista Deus, e isto significa, ainda, que não exista um juiz, um reparador das iniquidades, um abrigo para o pobre e para os injustiçados. Portanto, a não ser que alguém esteja comprometido com a injustiça e com o mal, não teria uma verdadeira razão para dizer “em seu coração”. 

E, do mesmo modo que, em pleno século X a.C. existiam ateus, qual o problema de haver, “em pleno século XXI” d.C., os que creem? Às vezes eu penso que historicizaram tanto a história que a coitada parece uma sucessão de ideias geniais que cada época julga somente sua, automaticamente tomando todo passado como ultrapassado ou, no máximo, precursor. Na verdade, não só não há um problema em crer em Deus como, ainda que houvesse, é um fato que as pessoas nunca deixaram de crer. 

Há tanta literatura disponível sobre as complexidades históricas, sobre a genialidade dos antigos, dos medievais e a superficialidade dos contemporâneos, que o mais surpreendente não é que “em pleno século XXI” ainda existam cidadãos religiosos confrontando suas ideias com cidadãos não religiosos. Surpreendente mesmo é que haja, em pleno século XXI, cidadãos utilizando expressões como “em pleno século XXI”, como se cidadãos religiosos devessem deixar de existir, pura e simplesmente. Como se, num passe de mágica, pudesse acontecer o que em vinte séculos não aconteceu.

Se quiséssemos realmente dar um passo, e deixar de falar que um truísmo é um truísmo para sermos minimamente relevantes, poderíamos dizer algo menos óbvio. Por exemplo, que surpreendente mesmo é como, deparando com a tentativa de cidadãos religiosos em exercer sua voz publicamente, alguém grite que se está tentando voltar à Idade Média. Isto é uma “etiquetada” que não diz nada, se alguém não disser sobre qual aspecto da Idade Média está se referindo. Não passa de um “antidiálogo”, isto é, a tentativa de demarcar o outro como ultrapassado, retrógrado, etc., indigno de voz. 

É surpreendente como, em pleno século XXI, ainda se repita um discurso vazio sobre o fato de a religião ser algo da esfera privada, de foro íntimo, que nada tem a ver com o que se passa na esfera pública, que não deva dar palpites sobre a agenda científica, tecnológica, econômica ou política. É surpreendente como, em pleno século XXI, as pessoas queiram retornar ao século XVIII, um retrocesso ao iluminismo ingênuo, que ainda confia nessas crianças tão jovens como a tecnologia ou a economia caminharem com as próprias pernas. É surpreendente como, em pleno século XXI, não se tenha percebido que estamos no século XXI, isto é, um século cheio de cidadãos religiosos, e até mais religiosos dos que décadas atrás. É impressionante que, em pleno século XXI, alguém pense que pode entrar num diálogo com o intuito de calar vozes, seja pela violência ou pela etiqueta. 

Quanto ao fato de haver vozes grosseiras, imorais e de ódio vindo de cidadãos religiosos, isto só confirma que estes também estão tentando calar os não-religiosos, o que certamente também não funcionará. Para estes, precisa valer o princípio de que mesmo a fé, e principalmente ela, só pode brotar genuinamente da liberdade. O mundo se tornou, queiramos ou não, irremediavelmente complexo. Quase tão complexo quanto a Idade Média e praticamente complexo como a Alexandria do período de Cirilo. O diálogo inter-religioso e entre cidadãos religiosos e não-religiosos é necessário, e deve ser possível. Só não adiantará nada passar ao outro um atestado de silêncio. Que século é este, ingênuo o suficiente para se julgar pleno?

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O desperdiçador de chances


Alguns sentimentos são insuportáveis na hora, como a culpa ou a vergonha. Outros, somente mais tarde, quando encaramos suas consequências, e entre estes está o orgulho. Isso porque a culpa ou a vergonha já são a consequência de alguma coisa e, portanto, sentimentos derivados, mas o orgulho não, o orgulho é um sentimento originário, causador. Na hora, parece até bom, eleva nossa sensação de valor e poder, mas depois que percebemos tudo o que causamos (ou que não causamos) com ele, é que vêm as consequências, que podem ser, por sua vez, a vergonha ou a culpa. Destas duas, difícil é saber qual a mais insuportável. Mas isso não significa que um sentimento supostamente bom, o orgulho, transformou-se num sentimento ruim, a culpa. O que eu quero dizer é que o orgulho, lá no começo, já era ruim, agradável apenas na aparência, como na verdade quase tudo que é verdadeiramente ruim, agradável na aparência, e desencadeia afinal a consciência de que teria sido melhor não tê-lo sentido.

Em vez de bem-estar, o orgulho causa muito sofrimento. Mas se eu levar adiante uma pequena reflexão sobre o orgulho das ações, será realmente uma pequena reflexão. Há poucas coisas desse tipo: por orgulho, fere-se a um pai com palavras excessivas, ou por orgulho vende-se uma antiga relíquia de família. Mas, ou minha imaginação é de curto alcance ou cada exemplo que penso quer começar por uma negativa: por orgulho não falei a fulano, por orgulho não perdoei a cicrano, ou não pedi desculpas a beltrano. Por orgulho, certamente, é mais fácil alguém, mesmo diante de dificuldades, não vender uma relíquia de família, do que vendê-la. É muito mais fácil, quando orgulhosos, não atender um telefonema do que realizar um. Embora este sentimento nos leve a fazer coisas, ele é particularmente pernicioso quando nos impede de fazer coisas. Peca-se, no orgulho, muito menos por ação do que por omissão.

Tudo é ainda um pouco mais complexo. Claro que o orgulho faz grandes coisas más. Mas ele é especialista mesmo é em deixar de fazer pequenas coisas insuspeitadas, que só depois nos damos conta de terem sido grandes oportunidades. Dependendo do tamanho do seu orgulho em determinado momento, ele pode lhe impedir de sentar um pouco mais à direita ou à esquerda. E isso poderia ter sido: aproximar-se de alguém, fazer um amigo, escrever um livro a quatro mãos, viajar em família para o Pantanal, batizar um bebê. Dependendo do seu orgulho, você pode não acrescentar um “por favor” a uma frase, e nada do que seria feito será feito. Uma coisa muito pequena pode não causar nada muito ruim, efetivamente, mas pode impedir que uma coisa muito ruim se desfaça. Assim, o orgulho é, mais que tudo, um desperdiçador de chances.

E eu tenho verdadeira obsessão por essa questão filosófica que nenhum filósofo coloca: “O que é uma chance desperdiçada?” ou “o que significa desperdiçar uma chance?” Se, por orgulho, não aceito um pedido de desculpas, que pode vir na forma de um convite para um café, desperdiço a chance de pôr fim a um enorme mal-entendido. Se, num lapso de orgulho, sim, porque o orgulho é um sentimento essencialmente ligado ao tempo, não aceito uma oferta de trégua, desperdiço a chance de pôr fim a uma guerra de trinta anos, que agora será uma guerra de cem anos. Mas não é só por isso que o orgulho está ligado ao tempo. Dizem os sábios que o tempo é senhor de tudo, mas eu diria até que o orgulho é, de certo modo, se não o senhor, pelo menos um dos senhores do tempo. Quem são os outros, eu ainda não sei muito bem. Mas nós, definitivamente, não somos. Como não somos senhores do tempo, também não o somos do orgulho, e por isso desperdiçamos muitas chances. Deixamos de fazer coisas insignificantes, e assim impedimos que grandes coisas se fizessem.

Mas também o orgulho, que tem aparência agradável, mas é ruim, que parece insignificante, mas é catastrófico, também revela uma terceira face maldita. Muitos o julgam uma virtude dos fortes, mas é sem dúvida um vício dos fracos. Diante da chance de pôr fim a um mal-entendido ou a uma guerra de trinta anos, prefere-se manter as coisas como estão, em clara posição derrotista. Na verdade, o orgulho é a máscara forte que o homem fraco põe sobre si, para evitar o conflito e consequentemente o seu fim, que é a paz, não para enfrentá-lo realmente. A guerra mantida indefinidamente pelo orgulhoso é uma espécie de paz ruim, e não verdadeiramente uma guerra, a qual, se fosse enfrentada com honestidade, humildade e coragem, poderia levar a uma boa paz. Mas como isso é difícil!

As grandes perdas de que me lembro não atribuo à mera covardia, mas ao orgulho que tinha a falsa aparência da coragem. Há sem dúvida uma responsabilidade aí. Mas também uma determinada zona cinzenta, quase mística, que impede uma chance de ser aproveitada. É por isso um exercício constante lidar com o próprio orgulho. E sempre o tesouro estará ali escondido na pedra mais insignificante que, por orgulho, você não vai querer levantar. Certa vez, encontrei numa livraria um livro que procurava há muito tempo. Enfrentei uma fila para comprá-lo e fui mal atendido. Orgulhoso, deixei-o sobre o balcão e saí pela rua, amargurado. Um amigo me alertou: “você não ganha nada, não está ferindo a loja com seu orgulho, só quem perde, com tudo isso, é você.” Voltei e comprei um dos livros mais importantes de minha vida até hoje. Sim, livros são muito importantes.

Mas é tão difícil lidar com isso, que uma vez provoquei uma catástrofe ao receber uma oferta para um café. Meu orgulho achou que não devia aceitar de imediato. Alguém me disse: (nesse momento em que chances são aproveitadas ou desperdiçadas, normalmente há anjos), “não seja orgulhoso”. Mas eu fui, infelizmente. Desperdicei uma chance, por orgulho, segundos depois de ter ouvido estas retumbantes palavras: “não seja orgulhoso”. E que continuam ainda retumbando. Por isso, quando digo aos mais jovens do que eu que não sejam orgulhosos, não me iludo de que eles aprenderão a lição. Acho que estou mais é dizendo isto para mim mesmo. Preparando-me para, pelo menos uma vez na vida, não errar assim de novo. É que descobri que faço isso com muito mais frequência do que pensava: desperdiçar chances por orgulho.

Descobri isso no dia em que senti o peso das consequências de uma chance desperdiçada. Restou-me, no piano que toco mal, uma bela canção chamada, com toda razão, “Insensatez”. Conta a história de um homem que recebe uma declaração de amor, mas não a trata com a devida atenção. Arrepende-se. Esta música tem uma letra em português e outra em inglês, de modo que ambas se completam. Em inglês, ela termina mais ou menos assim: “What can you do when a love affair is over?”, e não acho que se deva tirar o peso ao verso, pois há uma impotência fundamental nisso tudo. Como se sabe, uma chance desperdiçada não volta. Mas, em português, termina um pouco diferente: “Vai, porque quem não pede perdão não é nunca perdoado”.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sobre a disposição de escutar



No último mês, narrei aqui uma história sobre o fim da religião que chamei de “A Grande Bobagem”, que muitos, inspirados por uma teoria linear da aventura humana e por uma hipótese sociológica superficial, tomam por verdade. Desta vez, contrariamente, vou falar sobre verdade, que muitos, por não entenderem aquilo que constitui esse conceito tão simples quanto difícil, tomarão por uma narrativa ou mera história. Eu prometi fazer relatos de minha última viagem ao Velho Mundo e oferecer algumas razões pelas quais acredito que “A Grande Bobagem” é muito mais boba do que eu supunha, que a Europa não está inevitavelmente secularizada. Mas direi também que é boba a mesma história invertida, isto é, “A Grande Bobagem” contada de trás para frente, de que a crença num Deus miraculoso e redentor, com as devidas correções antropologicamente corretas, aguarda seu último papel histórico, na verdade pós-histórico, junto às sociedades periféricas não inteiramente secularizadas e que não conseguiram se industrializar o suficiente para afastar o fantasma da pobreza e de Deus. Pois bem, a minha humilde história, que vou contrapor a esta grande história boba, narro agora.

Faz pouco, desembarquei em Lisboa, Portugal, para um congresso de filósofos. Aquele era apenas o início de meu caminho até Santiago de Compostela, na Espanha galega, vale dizer. Lisboa era apenas a minha Antioquia da Síria. A primeira das cidades que visitaria falando de S.Paulo, apóstolo, e os filósofos que dele se ocuparam. Ficaria a maior parte do tempo no Porto, passaria pela Serra do Marão, na bela Amarante de S.Gonçalo, até regressar, passando pelo Rio de Janeiro, essa cidade natal que amo menos do que devia, à minha agora simpática Aracaju. Dirão que tal itinerário religioso é suspeito, um caso de exceção à regra geral do Deus morto e sepultado. Poderão até explicar tudo a partir da crise econômica ibérica. Mas o fato é que a conferência de abertura do congresso de filósofos foi proferida por um francês. Isto é emblemático, porque se há um lugar onde Deus morreu, ou poderia ter morrido, é na França, na Paris de Maximilien. É verdade que, para alguns historiadores da religião e da filosofia, como o ilustre Heinrich Heine, foi o filósofo alemão Immanuel Kant quem verdadeiramente O matou. Eis um enigma. Kant, que nunca saiu de sua pequena Königsberg, matou Deus em Paris, usando Robespierre como testa de ferro. É assim que os filósofos enxergam o mundo.

Mas então o filósofo que encontrei em Lisboa falando em francês era francês de Épenoy, e sua conferência tinha por título “Verdade, veracidade e crença”. Julguei que seria mais uma dessas preleções sobre conceitos abstratos, com forte inclinação analítica, quanto aos fundamentos da ciência. Sim, porque “crença”, caso não se esteja acostumado ao vocabulário filosófico especializado, há muito foi incorporado pela filosofia como uma noção ajustada à discussão sobre o conhecimento, e não sobre religião, fé ou qualquer coisa que poderia parecer à primeira vista. Mas, para minha surpresa, neste caso, era.

O filósofo francês famoso, chamado Jacques Bouveresse, começava por citar outro grande filósofo famoso, só que britânico, Bertrand Russell, esclarecendo que um dos argumentos essenciais que este utilizava contra a religião, e particularmente contra o cristianismo, era que as crenças religiosas são normalmente aceitadas por razões que não têm nada a ver com o conhecimento de que elas são verdadeiras ou falsas. Idealmente, deveríamos sempre basear nossas crenças em razões que dizem respeito à verdade da proposição que as expressa, e não em razões de outra natureza. O que seriam razões de outra natureza? Poderiam ser razões de ordem prática, terapêutica, etc. E, para Russell, é neste tipo de razão que estão baseadas as crenças religiosas. Isto é, porque elas seriam necessárias à preservação do instinto solidário, ao conforto diante de doenças e catástrofes, etc. Esta seria a diferença entre uma crença científica e outro tipo qualquer de crença. “Idealmente” significa também que a crença científica contém um “esforço” para seguir esse princípio, de que suas razões tenham a ver com a verdade da proposição, ou pelo menos com a probabilidade de ela ser verdadeira.

Naquela manhã, o francês não derrotou o britânico, mas foi muito impiedoso com ele. Dizia que, para ser honesto, é estranho pensar nos inúmeros indícios que temos para acreditar em Deus e que, embora não nos faltem razões para acreditar n’Ele, e dos mais variados tipos, não são lá grande coisa quando confrontadas, todas essas razões, com uma só questão realmente importante, a de a crença ser verdadeira ou não. Este é um pressuposto bastante radical do britânico, presente em sua radical recusa do pragmatismo, aquela corrente filosófica que, grosso modo, toma também em consideração se uma crença é boa de se crer, e não unicamente verdadeira. O francês afirmou, com bastante firmeza, que numa época, diferentemente da de Russell, em que a ciência já não tem tanto prestígio, tal princípio permite à religião ganhar novamente respeitabilidade.

Eu poderia aqui desenvolver críticas possíveis ao que gostaria de chamar de “positivismo” de Russell e encorajar uma perspectiva mais pragmática sobre a verdade. Pois certamente eu não me caso com uma mulher porque creio que é verdade que ela é a minha esposa, mas sim porque creio que ela pode ser uma boa esposa. Recentemente, um grande amigo, mas cujas crenças religiosas mais profundas eu não ouso perscrutar, ganhou um prêmio com uma tese de doutorado em filosofia discutindo muitos argumentos simpáticos à ideia de economia teórica e outras importâncias pragmáticas numa explicação científica. Mas eu não vou fazer isso. E também não vou dizer que se tornou démodé em filosofia tal positivismo ingênuo. Não, eu não vou apelar para um argumento histórico, para a moda intelectual, nem para o estilo de vida de certo conceito de verdade. Minha intenção inicial era muito menos pretensiosa. Basta, para mim, mostrar que Deus não morreu na Europa, e que argumentos religiosos são levados a sério por lá.

Quero dizer que, se eu fosse Paulo e tivesse chegando a Atenas, eu não teria encontrado estoicos e epicuristas debochados, mas estoicos e epicuristas sérios, como de fato creio que eram os estoicos e epicuristas de Atos 17:18. Isso não significa que seriam mal-humorados, mas que gostariam de rir da coisa certa. Frequentemente, com raras exceções, como este amigo suspeito por ser um amigo, não creio muito na maioria dos filósofos brasileiros da ciência. Quando cheguei a Lisboa, não encontrei um filósofo da ciência aferrado a seu pressuposto dogmático como se fosse a infalibilidade do Papa, mas um filósofo interessado em levar a sério quais argumentos nós temos para crer na infalibilidade do Papa ou, pelo menos, na existência de Deus. Se ele não estava colocando em questão seu próprio pressuposto, então estava discutindo argumentos religiosos no seu mesmo plano, o plano da verdade.

Talvez o filósofo brasileiro da ciência, com raras exceções, mereça o homem religioso brasileiro. Poucos deles têm alguma disposição para escutar um ao outro. Por isso, nossa filosofia da ciência pode ser tão rasa quanto nossa apologética cristã. Com raras exceções. O fato é que aquele filósofo francês, contrapondo e ao mesmo tempo levando a sério o pressuposto de um filósofo britânico, levou a sério razões para a crença religiosa. Fez isso a partir de uma ideia muito difícil, que eu só comentarei daqui a um mês, noutro texto. É uma ideia boa demais para não merecer um texto só seu. Tivemos, eu e aquele filósofo gentil, uma conversa pessoal muito franca sobre esta ideia, mas guardarei algum suspense. Quando dou de vistas para trás, penso que meu humilde relato de viagem pode se estender mais do que eu supunha. Como era mais do que eu supunha a bobagem da “Grande bobagem”.

Mas talvez o mais importante seja insistir em que a refutação da Grande Bobagem só faz sentido junto com a refutação da sua versão invertida. Se é falso que a Europa secularizou-se por completo, então também é falso que há uma “contramão” da história, protagonizada por energias religiosas da América Latina, por exemplo. Este é mais um sinal, penso eu, de um certo "complexo de vira-lata" que atribuem constantemente aos brasileiros. E por que não valeria para os filósofos brasileiros? Mas, na verdade, discordo da expressão porque gosto muito dos vira-latas. O fato é que estamos todos no mesmo contexto global, na mesma condição humana, disputando os mesmos argumentos. Mas as poucas vozes religiosas sérias por aqui, talvez por culpa daquilo que uma vez eu chamei de grande mídia anencéfala, e da pequena mídia bicéfala, continuam por ser ouvidas. O filósofo ou homem de ciência, por sua vez, com sua falsa imagem do que seja a tarefa da filosofia ou da ciência, o tal complexo canino, continua sem verdadeira disposição para escutar. Sem nem mesmo observar os argumentos, mas somente a disposição para escutar e levá-los a sério, contrariando todas as expectativas, eu me nego a acreditar que somos mais religiosos que os povos do velho continente. Quero acreditar que, no fundo, também não o somos menos. Nenhum povo é.



domingo, 28 de setembro de 2014

A Grande Bobagem

Vou contar-lhes uma história, de que este texto é apenas a introdução. Há pouco mais de um século, difundiu-se mais facilmente do que merecia a ideia de que a Europa tinha se secularizado. Junto com ela, “nasceram” já secularizados Canadá e Oceania. É a velha história, tão nova e já velha, de que Deus tinha morrido, mas cujo fantasma ainda perambulava nos rincões pobres da América Latina e parte dos EUA, que possuem, devido ao excesso de riqueza, mais rincões pobres do que a gente imagina. De outro lado, como se nada tivesse a ver com nada disso, a Grande Ásia. Isto, toda essa história, é o que eu chamo de “A Grande Bobagem”, grande também no sentido de que é uma bobagem plausível, mas afinal uma bobagem.

Essa história divide a história em duas, não no plano vertical, que o Cristo dividiu, mas no plano horizontal, geográfico. A história das duas partes do planeta: a parte que tem história, e a que não tem. A primeira parte teria então se secularizado. A segunda era uma enorme roda girando eternamente em torno de si mesma, na suástica budista, no cofio da barba de Confúcio, nas peregrinações do profeta Maomé. Junta-se a esta história um tanto carregada de misticismo filosófico uma hipótese sociológica medíocre, a de que a religião é fruto da pobreza, e pronto, tudo fica facilmente explicável, muito mais facilmente do que seria aceitável.

Uma versão invertida dessa história diz que não foi meramente o fantasma de Deus que migrou para as bandas que não embarcaram sorridentes na história, mas que para ali, junto com Deus, migraram todas as energias adormecidas de uma civilização que tinha tomado o bonde da história morro acima, mas que, desgovernado, agora se dirige morro abaixo vertiginosamente. Quando este bonde parar, dizem, as energias do novo mundo despertarão, pois dali sairia novamente da tumba o Deus que outra vez já saiu da tumba. Esta, contudo, é uma bobagem não menos pequena. Na verdade são partes da mesma grande bobagem.

Sendo versões invertidas da mesma história, uma contada de frente para trás e outra de trás para frente, é normal que alguns acontecimentos se encaixem melhor na primeira versão e outros, na segunda. Os romances policiais, por exemplo, em que são perseguidos e descobertos os indícios de um crime já cometido, mas do qual nada se sabe, bem poderiam fazer mais sentido lidos ao contrário. Assim leríamos a história de um crime que deixou vestígios e que, afinal, põe um monte de gente ensandecida por decifrá-lo, e o leitor, que já sabe o final, ou melhor, o começo, ficaria rindo eternamente dos personagens, ou esperando-os confessar-se, como o inspetor Porfiri Pietróvitch faz com o pobre Ródia.

Por isto, não é completamente destituída de verdade a história de um Deus que sabe sair da tumba sair novamente da tumba. Não é imediatamente errado pensar que a secularização cederá lugar, ou já cedeu, a energias civilizatórias armazenadas na periferia da história. Mas esta é uma história invertida, que depende da ideia de que aquela outra história, a da secularização, está redondamente enganada, e este “redondamente” não é por acaso. A grande bobagem é redonda como um sistema filosófico. Dizer que o Brasil é o país do futuro é dizer também que o mundo que um dia prescindiu do Brasil não tem mais futuro, e que nem o Brasil o tem. Obviamente, parte dessa história é verdadeira, parte é falsa, e nenhuma está inteiramente correta.

O Brasil não é o país do futuro, inclusive de Deus, e eu não deposito nele, no Brasil, entenda-se, todas as minhas esperanças civilizatórias. A Europa também não matou Deus e chegou ao termo de sua história. Mas vamos resistir a este impulso óbvio e caricato das inversões. Isto não significa que não haja esperanças civilizatórias que incluam o Brasil e Deus. Mas também não significa que essas esperanças civilizatórias incluam necessariamente o Deus do Brasil. A expressão “Deus brasileiro”, se você pensar bem, contém o cerne da inversão dessa teoria fajuta da história linear progressiva civilizatória etc. A ideia de um país do futuro, guardador do sagrado, é na verdade uma ofensa. Ela parte do pressuposto de que o Brasil e Deus representam tudo que a história negou, e que um dia reclamarão seus direitos e salvarão a humanidade. Mas não é bem assim.

Se a história foi negada, o Brasil e Deus não passam de restos mortais de uma civilização à deriva. Não haverá mais direitos que reclamar nem nenhuma salvação para a humanidade, que não estará mais nem aí para salvação nenhuma. Portanto, a nação que tem o privilégio histórico de ser a nação fundamental da era pós-histórica é uma nação que não tem privilégio algum, e esta história é uma farsa. Nenhuma das suas versões fala a verdade. E, no entanto, ainda há história na Europa, ainda há Deus, como às vezes também há história no Brasil, e às vezes também, apesar de tudo, há Deus.

Seja em qualquer parte do mundo, é o mesmo Deus, e a mesma história, difícil de contar numa história só, ou teoria. Só não embarque nesta história invertida de que a fé sincrética da, como dizia um amigo meu, “primeira igreja da mesquita judaica católica evangélica xamanística do branco velho sanyasi e que toma um chazinho” vai salvar o mundo. Isto é tão tosco como o “projeto otimista progressista científico tecnológico inovador cibernético eurocêntrico cristão mas secular porque matou Deus”. Recentemente, vim da tão religiosa Ibéria, da tão secular Europa, e minha convicção de que esta tese é inconsistente tornou-se ainda mais forte. A história é bem outra. Pretendo contá-la em textos seguintes.



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